segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Quizomba da vida

Detesto fazer com que isso aqui pareça um diário, mas ultimamente tô precisando explicar as coisas – não para que me entendam, mas para que eu me sinta entendida.
Eu queria mesmo é que o mundo fosse uma grande roda de samba. Não sei se de voz feminina ou masculina. Mas samba. Samba que fale das baianas, da tristeza, da paz, da alegria, dos quintais, da vida e do amor.
Já experimentei alguns tipos de massagens, yoga, mas ainda não descobri um processo de relaxamento tal qual o samba de roda. De raiz. De feliz. De cair, no samba, na ciranda, na paz.
Quizomba, o nome da roda. Lençóis coloridos no vento, parecendo tempos infantis nos quais a gente corria por entre os varais dos quintais, passando pelo rosto aqueles lençóis macios e perfumados. Brancos ou floridos, já não importa. São lembranças do samba que a gente faz da vida quando é criança.
Quizomba fechou meu domingo com chave de samba (ou ouro, porque pra mim está significando o mesmo). São dores na perna de tanto pular. Dores boas de pular de alegria. Para qualquer lado que se olhasse, via-se pessoas sorrindo, brincando, caindo na gandaia da vida no quintal de casa, guardando os segredos no meio dos lençóis macios no rosto. Cheiro de alma lavada transbordando em suor de samba.
Assim se começa uma nova semana, um impulso para o novo mês, depois de todo primeiro domingo.
Assim se faz em Londrina. Quizomba da vida com samba.


Já que é assim, vou deixar um “ouro” cantado por Clara Nunes (como ninguém):

Umas e outras

Se uma nunca tem sorriso, é pra melhor se reservar
E diz que espera o paraíso e a hora de desabafar
A vida é feita de um rosário que custa tanto a se acabar
Por isso às vezes ela pára e senta um pouco pra chorar
Que dia!
Nossa, pra que tanta conta
Já perdi a conta de tanto rezar
Se a outra não tem paraíso, não dá muita importância, não
Pois já forjou o seu sorriso e fez do mesmo profissão
A vida é sempre aquela dança aonde não se escolhe o par
Por isso às vezes ela cansa e senta um pouco pra chorar
Que dia!
Puxa, que vida danada
Tem tanta calçada pra se caminhar
Mas toda santa madrugada quando uma já sonhou com Deus
E a outra, triste namorada, coitada, já deitou com os seus
O acaso faz com que essas duas, que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma rua olhando-se com a mesma dor
Que dia!
Puxa, que vida danada é tanta calçada pra se caminhar
Que Dia!
Nossa pra que tanta conta, já perdi a conta de tanto rezar
Que dia!
Puxa, que vida comprida, pra que tanta vida pra gente desanimar
(Clara Nunes)

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"Até escrevi ensaios mais otimistas com relação à cultura de massa. Eu reconheço que ela tem aspectos positivos, como a difusão da informação. Agora, quando se trata do problema da valorização da arte, dos valores artísticos, há uma grande defasagem. Isso explica um pouco também essa coisa da arte que está aí, desse experimentalismo sem limite. Se você fizer uma exposição de gravura ninguém toma conhecimento, mas se você ficar nu no museu, é notícia. Você manda para a galeria um tubarão cortado ao meio e todo mundo fala de você, mas se pegar e pintar um quadro, não chama a atenção."
(Ferreira Gullar, 1998)

2 comentários:

Ricardo Dalai disse...

Ta...
de certa forma critico, ou ironico?
por um lado serio, e nitidamente samantha...

so tu mesmo
odeio samba, mas levando em consideração Chico Buarque devo admitir: samba deve curar mesmo...

bjus

Anderson Almeida disse...

Muito bom... muito bom é falar do samba, porque o samba é tudo que eu gosto, é povo, poesia, é minha escola que nasceu no morro e me educa para a arte que se diz eletizada, é ouvir e falar com propriedade: "Quem não gosta de samba bom sujeito não é/é ruim da cabeça ou doente do pé" Dorival Caymmi em “Samba da Minha Terra 1940”.
Caymmi faz canções tão perfeitas que parecem criadas pela tradição popular. Como se poderá sintetizar melhor aquilo que o sambista tem vontade de dizer sobre o samba? Na franqueza destes versos tem-se a sensação de que o assunto está esgotado e não se fala mais nisso.
Ah! só me resta reverenciar esta critica tão oportuna e bela... adorei... parabéns...