quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Revolução de Botequim

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O marido saiu para trabalhar e a deixou na cama, feito criança em feriado. Foi para o trabalho, como fazia todas as manhãs. Suas maiores satisfações era acordar ao lado dela e, depois, vê-la novamente após um dia cansativo.
Enquanto isso, ela ficava cuidando do lar, delegando tarefas à governanta. Pedia que as almofadas do sofá ficassem arrumadas do jeito que ele gostava e que o controle da televisão estivesse ao alcance das mãos, quando ele se deitasse para assistir ao telejornal. O jantar tinha que ser preparado com o tempero preferido dele, a salada com as folhas que ele mais gostava e a sobremesa deveria estar esperando na geladeira, assim como ela.
Naquele dia, ela resolveu sair, após o almoço, para fazer algumas compras. Queria também caminhar um pouco e escolher pessoalmente as frutas e especiarias para o jantar. Aprontou-se com o vestido de flores miúdas que lhe deixava com um ar recatado e a fazia se sentir à vontade. Prendeu os cabelos como há tempos não fazia, assim, eles a deixavam com um aspecto naturalmente desprovido de obrigações. A franja caía sobre o nariz, fazendo com que ela levantasse o olhar e a sobrancelha. Estava misteriosa.
Pegou a sacola e saiu andando pela rua como se tivesse nuvens sob os pés, como se a sua vida fosse diferente da do resto do mundo. Sua paz e tranqüilidade contagiavam quem a observasse. Ela mantinha um sorriso maroto, e sentia vontade de cumprimentar estranhos na rua. Parou em uma esquina, em frente a um botequim, e pode ouvir homens e mulheres rindo e conversando enquanto bebiam. Pensou em como seria prazeroso misturar o anseio que estava sentindo com a alegria daquelas pessoas. Entrou no bar, com a sacola pendurada nos braços, e pediu uma cerveja. Bebeu a primeira sozinha e, depois, já um pouco alterada, fez amizade com alguns companheiros de balcão. Ria de si mesma. Ninguém jamais imaginaria encontrá-la naquele lugar, e isso a divertia ainda mais. Estava sentindo o calor da rebeldia em seu sangue, que começava a ferver com intensidade assustadora. Ria cada vez mais alto, contava piadas, histórias de seu marido, da época de solteira e das festas na faculdade. Não lembrava do jantar que tinha planejado, nem que devia voltar para casa. O prazer que os novos amigos e amigas do bar estavam lhe oferecendo superava qualquer outro que o marido pudesse lhe proporcionar naquele momento. Passou a tarde inteira conversando e rindo com pessoas que jamais conheceria em seu cotidiano e compartilhando alegria com estranhos tão íntimos de seus desejos de liberdade.
Quando se deu conta, o sol já havia se posto e precisava, sem demora, voltar para casa. Despediu-se dos companheiros e saiu, com a sacola vazia, as pernas bobas e os braços balançando relaxadamente. Ainda mantinha o sorriso, mas, agora, por lembrar das bobagens que tinha ouvido e de tantas coisas engraçadas que havia dito.
Ao abrir a porta, pôde ver o marido esperando-a no sofá, sem ter desarrumado uma almofada sequer. Olhou para ele e não conseguiu segurar o riso sarcástico que explodiu em seus lábios, carregando o ambiente com intenções de mudança. Ergueu o vestido, sentou no colo dele e fizeram amor como loucos, sem dizer uma palavra.
Ele, pela primeira vez em anos, dormiu nu, sem o pijama de mangas, e ela, satisfeita como nunca com a revolução que aquele dia causara em seus hábitos, desejos e pensamentos. Não era a mesma, jamais voltaria a ser. Não era mais uma boneca, agora, era uma mulher.
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Samantha Abreu
escrito em 31/10/2004

2 comentários:

Ricardo Dalai disse...

tava com saudade de vc por la...

ow...como vc fez pra postar esses lincks ai do lado???
me ensina??? por favor...

Uilians Santos disse...

Belo texto, muito bem escrito. Gostei do seu blog

passe no Palavras Certas
http://certas.blogspot.com

Um abraço e sucesso