sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Superstição

— Nesta casa não se tranca a porta? Com tanto ladrão por aí!
Silêncio, cisma e cheiro de flor. Que nem existia. Só na parede, numa reprodução que ela havia comprado em Paris.
O medo eriçou-lhe os pêlos. Sua mãe sempre lhe dizia que sentir cheiro de flor ausente é prenúncio da própria morte.
O cheiro vinha do quarto e as rosas estavam todas lá, espalhadas pelo chão. E sobre os corpos que fornicavam feito animais. Ela e um estranho.
Voltou à sala e desabou — aliviado — sobre o couro macio da poltrona. Arrancou a gravata e serviu-se de generosa dose de scotch.
Legítimo!

Mariza Lourenço
"escritora suicida"

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