quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

A Dádiva



De repente, tudo começava a acontecer, e ela estava fascinada com isso. Nunca tinha conhecido esse lado dinâmico da vida, e sua existência começou a parecer extremamente interessante, como se todas as coisas tivessem sido criadas para aumentar sua satisfação em viver. Para ela a vida sempre tinha parecido uma jornada diária de trabalho. Nada tinha de atrativa e confortável. Seus amores nunca eram arrebatadores, suas paixões nunca eram enlouquecedoras, seus projetos nunca eram realizadores. Sempre sofrera com preconceitos e incompreensões, pois ninguém aceitava o que ela escrevia e não acreditavam em sua vocação literária, além disso, não respeitavam o que ela pensava nem a forma como se vestia. Enfim, sempre achavam que ela devia procurar outras atividades mais convencionais. Ela sempre se sentira deslocada, perdida, e nunca havia conseguido um lugar para criar raiz. Até agora.
Tentava encontrar o exato momento em sua vida no qual tudo começou definitivamente a mudar, mas não conseguia. Só tinha certeza de que quando deu por si, estava loucamente apaixonada, amando intensamente e seu trabalho estava sendo reconhecido, e o mais intrigante é que ela não tinha feito nada para que tudo isso acontecesse. Parecia até que Deus, ou qualquer outra entidade poderosa, tinha olhado pra ela caridosamente e entendido o que ela sentia e o que almejava.
Sua inspiração para as artes estava extremamente aflorada, e aquela paixão despertada tinha feito sua alma mais leve, seus sentidos mais aguçados. Estava tão confortável diante da vida, que até as pessoas que sempre a censuraram, apesar de ainda não entenderem o que ela realmente sentia e queria, passaram a reconhecer tal mudança e a tratar com dignidade. Tinha feito amigos diferentes, estava cada vez mais envolvida em sua tarefa literária, e isso enchia seus dias de luz e prazer. O fato de estar apaixonada por alguém que também a amava, dava-lhe mais ânimo e idéias para sua veia poética. Ela podia enfim dizer, que estava realmente feliz.
Porém, mesmo diante de tudo o que o universo colocara em sua frente, uma dor a incomodava: a ânsia por não saber agir diante de tanta expressividade. Não conseguia conviver de maneira natural com aquelas dádivas. Não sabia amar, não sabia viver intensamente e não sabia escrever para impressionar pessoas. Às vezes, ela parava para refletir sobre isso e era atormentada por um sentimento de impotência inato. Tentava esquecer deixando que os dias passassem um após o outro, mas a cada atitude cotidiana pensava que poderia estar perdendo tudo o que ganhara. Lembrava-se constantemente de que havia sido acostumada a esperar que tudo desse errado, e por isso, o que tinha agora era vantagem. Olhou dentro de si mesma e resolveu apenas viver um momento de cada vez, para que em cada um deles pudesse dizer que era feliz, a doses pequenas.

SAMANTHA ABREU
escrito em 08/08/2004

2 comentários:

Uilians Santos disse...

SAMANTHA,

gOSTO MUITO DE SEU BLOG E TOMEI A LIBERDADE DE COLOCÁLO NA MINHA LISTA DE INDICAÇÕES.

uM ABRAÇO E SUCESSO
pASSA NO PALAVRAS CERTAS OUTRA HORA

Leo Bueno disse...

Há momentos em que clamamos por algo que não temos. Depois, recebemos demais e não sabemos como lidar com tantas ofertas.

Gostei do tom confessional do texto. Em breve, prometo a resenha de "Lavoura Arcaica": um livro, um filme e uma trilha sonora (tenho todos) que me mudaram a minha vida.

Beijo!