segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

A Armadura Moderna



A força da vida era dolorida.
Acordava cedo, olhos inchados. Quando levantava da cama os pés ardiam no chão gelado. A cada passo até o banheiro seu corpo estremecia e suava frio, com desespero lhe explodindo os poros. Era a vida amanhecendo e a jogando para o cotidiano tão febril.
Não queria mais aquela rotina de mulher moderna, cheia de afazeres. Desejava apenas sua cama e suas tarefas domésticas tão realizáveis e aperfeiçoáveis.
Quando estava sob o chuveiro imaginava que a água levava pelo ralo toda sua revolta pelo despertar do dia. Queria a noite para sempre.
Ao banho cabia sempre a função de filtro entre sua vontade de permanecer dona de casa, e a necessidade de se jogar à vida que a esperava na rua.
Ela resistia, mas depois de lavada com água e espuma, vestia-se com o empreendedorismo feminino, e fingia satisfação o dia todo.

Tudo recomeçava à noite.

Samantha Abreu

2 comentários:

renata disse...

seu blog faz juz aos comentários no orkut, parabéns e um excelente ano pra vc.

Marco Aurélio disse...

Isso aqui é fantástico!