domingo, 28 de janeiro de 2007

DR / The End


é verdade que eu minto, ele disse rindo. ela não achou graça. fazia tanto tempo que ela mentia que aquilo tudo era real, e acolhia a ficção construída por falta de uma vida que germinasse por si. para ele era só diversão, mais um passeio, ele era um ser em trânsito. ela queria atracar, jogar âncora, cansada de andar à deriva, por isso tudo era sempre muito sério. tudo é grave pra você, ele disse, agora sem rir, tanta gravidade que eu me sinto preso ao chão, ele completou, com ânsia de vôo. verdade?, ela perguntou com ironia no olhar, piscando sobre o avesso da pálpebra já úmido da lágrima escondida, que brotava daquela parte que sabia que aquilo era um anúncio de fim. verdade, ele respondeu. tudo bem, ela mentiu. ele sorriu honestamente aliviado. ela ficou sem sorrir por muito tempo depois daquilo. a ficção nem sempre termina com final feliz, ela pensou, princesa de seu sonho,vendo o sapo que chamou de príncipe atravessar a porta, ela e sua abóbora, voltando a pé para casa. a realidade nem sempre é triste, ele pensou, orgulhoso de sua estréia de sinceridade, sem pensar muito nos estragos de suas confissões. pontos de vista, miopia e cegueira, enquanto contracenam personagens de peças diferentes, presos no mesmo espetáculo. ganha o aplauso quem improvisa melhor.

roubado sorrateiramente de “O véu de Maya” (link aí do lado!)

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