segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Paixão em desencontro

Todas as manhãs, ao acordar, sentia prazer em virar-se para o lado e vê-la dormindo com a boca torta, quase aberta, amassada pelo travesseiro. A respiração era profunda e descansada, como se um anjo a guardasse. Sempre perdia alguns minutos observando-a, tentando acompanhar o ritmo da respiração, e por várias vezes quase perdia a hora para o trabalho. Tinha uma imensa pena de interromper aquele sono, por isso, hesitava em sair de casa, sem saber ao certo se devia acordá-la, ou apenas lhe dar um beijo de despedida. Acabava sempre indo embora inseguro, temendo que para ela, o dia passasse como se ele não existisse. Não suportava a espera de voltar para casa e encontrá-la na sala, de banho tomado cheirando a xampu de hortelã. Mas o relógio era impiedoso e se arrastava lento, mesmo frente às súplicas para que o tempo passasse depressa. Quando se entregava à vontade dela, pegava o telefone e ligava: “tô com saudade...”. Ela, estressada com os afazeres domésticos, respondia apenas “ahã... eu também... na volta, passa na padaria.” Depois disso, para ele o trabalho era produtivo, sentia alívio de tê-la escutado e o tempo parecia voar.
Chegava em casa ansioso por um beijo ou um cheiro no pescoço, mas ela fugia. Argumentava que ainda não tinha tomado banho, e mandava que ele esperasse na sala. Terminava calmamente o jantar. Ia para o banho. Preocupava-se com todos os detalhes femininos para agradá-lo. Demorava horas procurando a lingerie mais sedutora, e quando finalmente voltava à sala, era ele quem estava com a boca torta, amassada pela almofada, num sono invejável.
Com os olhos cheios d’água, ela pegava o telefone, corria para o quarto e ligava aos soluços para a irmã: “ele chegou, deitou no sofá e dormiu... eu sabia, ele não me ama mais, certamente tem outra!”. A irmã, indignada, complementava com o apoio feminino compartilhado entre as mulheres: “Os homens são iguais, todos insensíveis...”.
Enquanto isso, ele dormia no sofá o sono dos inocentes. Mantinha nos lábios um sorriso sereno enquanto sonhava com ela de camisola, cheirando à hortelã.

SAMANTHA ABREU

2 comentários:

RIZ_SS disse...

um texto perfeito; para homens inocentes como eu... ;)

André Augusto disse...

Mto bom o texto...
Adorei!
Parabéns...peguei o endereço do seu blog lá da comu dos blogueiros do orkut...

Bjo, André!