terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Tempero Pronto (da série "Mulheres sob descontrole")


(desabafo de uma mulher cansada de tolices pensativas...)


“...Sabe, sempre fui alvo de pessoas que falam coisas sem pensar. Fazem isso sempre com as melhores das mais diabólicas intenções, tentando não me magoar. Pois bem, falar é fácil, e as pessoas não têm idéia das atrocidades que cometem quando opinam e aconselham sobre a vida alheia.
Ele, principalmente, acha que sou sensível demais, às vezes até um pouco birrenta, mas não sei não, à altura onde ainda estamos, com todo mundo achando que as mulheres devem ser modelos de sobriedade e autocontrole, eu sou mesmo uma santa.
Desde o começo de namoro, ele ficou a par de toda a minha história de vida e problemas traumatizantes da infância. Prefiro não detalhar nada aqui, mas o fato é que agora vem me dizer que preciso ser diferente. Meu Deus! Com 43 anos não se muda de personalidade nem de costumes!
Ele trouxe até a irmã para tentar me ajudar com meu ‘problema psicológico’. Isso tudo só porque tenho o hábito de temperar a comida com tempero pronto. Nego-me a usar cebolas. Ele e a família, todos psicólogos de nascença, acreditam na superação desse trauma! Quando vejo a irmã dele entrar, meu corpo treme incontrolavelmente. Em minha cabeça vozes vociferam os mais profanos palavrões que já ouvi na vida, inclusive, alguns que eu nem sei o que significa, mas, de maneira elegante me viro para ela e solto: “-De novo, Luíza? Já disse ao Rubem para não te incomodar com isso!”.
Ela faz a maior de todas as tentativas para se aproximar de mim e explicar que preciso de ajuda, não só pelo fato de odiar cebolas, mas pelo significado disso para mim.
Então tá, vou explicar: quando eu era criança, tinha péssimos hábitos alimentares, aliás, como a maioria das crianças, e meu pai me ameaçava com um cinto, me fazendo comer toda a cebola da salada. Mais tarde, na adolescência, minha mãe foi morta por assaltantes quando saía do supermercado, e tinha nas mãos um pacote de cebolas. Desde então, as cebolas vêm me acompanhando pelos piores momentos da vida. Por isso, Rubem e toda a sua família acham que guardo uma arquitetura de traumas devido aos episódios com as cebolas.
Enquanto Luíza derrama toda sua explicação filosófica para tentar me salvar da perdição enlouquecedora, eu pratico um dos meus exercícios favoritos: converso comigo mesma. Faço planos para o fim de semana e penso nas contas à pagar. Às vezes, olho para ela e vejo sua boca mexendo sem parar, como se estivesse dentro de uma televisão no mudo. Não escuto nada.
O que Rubem e toda a sua corja não entendem é que não estou nem aí para as tais cebolas! Recuso-me à usá-las por pura vaidade. E de fato, quando ele insiste, me deixa profundamente irritada. Mas, na verdade, o que eles não percebem, é que tenho apenas um defeito, quase genético: sou patologicamente incapaz de agüentar merda de quem quer que seja.
Nesse momento estou no limite da minha tolerância, enquanto Luiza continua a falar descontroladamente, e se ela imaginasse o grau de ebulição do vulcão que existe dentro de mim, pararia imediatamente. Assumo um ar sombrio e tempestuoso, que ocupa todo o meu rosto como se eu tivesse acabado de descobrir asas de barata do meu sanduíche. Volto-me para ela, com os olhos faiscando e riscando o ar com uma só expressão: “fora daqui!”.
- Luiza – interrompo, deixando-a com a boca aberta – já li quase todos esses livros: a grande busca pelo significado da vida, para qual história minha família me encaminhou. Sei de tudo isso e não ignoro totalmente, apesar de algumas atitudes recentes demonstrarem o contrário. Agora peço desculpas mas estou de saída, e é urgente.
Sem maiores explicações saio da sala, deixando-a se debater no sofá e penso: agora sim despedi-me da minha derradeira imagem de pessoa elegante e hospitaleira. Sou uma destruidora. Anarquista. Hooligan. Selvagem. Bruxa. Na realidade uma terrorista, o que por dentro me trás uma gostosa sensação de contentamento.
Sei o que irão avaliar agora, vão me depreciar com coisas do tipo: não sou confiável, sou imprevisível, propensa a acessos espontâneos de ironia, irresponsável, rabugenta. Vai ser o discurso habitual para acabar comigo. E para falar a verdade, senti mesmo vontade de avançá-la na garganta até o sufocamento. Depois, ir como sombra de Rubem ao funeral dela, surpreendendo a todos atrás do meu óculos Calvin Klein, com um erguer tumular de sobrancelhas significando ‘isso foi só um aviso’.
Mas, só o fato de ver-me livre de sua dissertação psicanalítica das cebolas já enche de sol o meu coração, e em estado de graça, vou dançando e saltitando pelas lajotas da garagem até onde deixo meu carro. Depois disso, logo pela manhã estou ansiosa por um cansativo dia de trabalho. Compreendo inteiramente que Rubem e toda sua família sintam as mais sofridas emoções humanas, mas há limites: meus intestinos simplesmente não conseguem mais suportar. Claro que o que realmente quero fazer é socar os malditos, chutá-los, arrancar os cabelos pela raiz, berrar muito e arranhar a cara deles até que fiquem parecidos com javalis africanos esfolados vivos. Talvez assim, me digam por que estão fazendo isso comigo e com as drogas das cebolas!
Trabalho o dia todo pensando nesses atos insanos de esquartejamento. À noite, chego em casa à tempo de cozinhar o jantar e mais um vez, me recuso usar cebolas.
Rubem aparece à porta e sinto no ar sua respiração. Quando começa a abrir a boca para me dirigir a palavra viro em sua direção com uma enorme faca apontando-lhe o corte e berro:
- Não vou usar cebolas porque elas me fazem chorar! E che-ga!

Samantha Abreu

5 comentários:

Uilians Santos disse...

Samatha,

Mais uma vez, Muito bom! Eu até pensei em participar de concursos literários em 2007, mas quando lembro que vou deprar com textos dessa qualidade, dá um frio enorme na barriga e uma vontade de nem colocar o time em campo, pois logo de cara dá para ver que não vai dar. Estou muito atrás, tenho muito que ler e aprender... Talvez se tiver um concurso de melhores posts... Por melhores que sejam seus textos, é uma pena que ninguém comente-os...

Um abraço e sucesso!

Uilians Santos

Vozes na mente do Társis o obrigaram e ele disse...

Gosto de cebolas. CALMA, vira essa faca pra lá...

Não acho que cebolas são um bom motivo para ter problemas conjugais. Existe um meio termo. Tempero pronto natural. São uns temperos naturais, que duram pouco tempo e precisam ser usados logo e são naturais, alguém prepara com cebolas de verdade e tal.

CALMA.. vira essa faca pra lá.. é só uma idéia..
Tá bom, tá bom, to saindo.

bj..

Maya disse...

Valeu a visita Samantha! Bom vir aqui também!

ALLEZOOM disse...

se eu me cebo-lar com esta "stória",choro!
Aos cântaros de rir!
cá estive ou tu estás.. ô pro-fana!
pró-fania!!!
bjsss

Anderson Almeida disse...

Bom texto!!!!! Só que ser anarquista não é ruim... hahaha...

Agora vou ler todos...