sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Aqui se faz aqui se paga

Ele não tinha esse direito. Não depois de tudo que vivemos juntos. Um dia namora, me leva ao cinema, jura eterno amor, no outro diz que não quer mais saber de mim? E as promessas, os beijos, as juras de amor? Não se brinca assim com uma mulher.
Um belo dia ele tocou a campainha, sentou-se a minha frente e disse com a maior delicadeza que guardaria ternas recordações do tempo em que estivemos juntos, mas estava tudo terminado entre nós. Fiquei furiosa:
- Quem você está pensando que eu sou pra ser deixada assim?
- Assim como?
- Assim, sem essa nem aquela, de repente. Um belo dia você acorda, resolver terminar o namoro e fim.
Quando ele se pôs a dar explicações com aquela cara de asno, eu virei bicho. Peguei um vasinho de violetas que estava ao meu alcance e acertei-lhe em cheio na testa. Ele levou um susto imenso. Fiquei parada, esperando. Achei que ele fosse voltar atrás, pedir desculpas, mas só o que fez foi levantar, sacudir a roupa e sair batendo a porta.
Resolvi dar um tempo. Com certeza isso passa, ele cai em si e tudo volta ao normal. Esperei dois dias e fui a sua casa, tempo suficiente para esfriar a cabeça e botar as idéias no lugar. Levei um maço de flores do campo e um pacote de marzipã. Ele não resistiria.
Ao me ver na porta com os presentes, ele me mandou entrar friamente e colocou os pacotes sobre a mesinha, sem abrir. Até aí tudo bem. Mas quando ele falou que não sabia o que eu estava fazendo ali, eu pirei. Esse cara me faz vir até aqui, gastar um dinheirão e não sabe o que estou fazendo aqui? Ele pensa que é só chegar, namorar, jantar fora, dizer que me ama e se mandar? Como se não bastasse, ainda teve a cara de pau de me dizer que namoro é coisa que se termina todo dia. Eu perdi a cabeça. Joguei os marzipãs no chão e pisotiei feito cabrita. As perinhas e maçãzinhas viraram uma pasta furtacor grudada no carpete pra nunca mais sair. Quando ele me apontou a porta da rua, eu saí feito um rojão.
Quem esse cara pensa que é pra me expulsar assim da casa dele? Um dia namora, beija, leva pra jantar fora, no outro me enxota feito cachorro? Essa vai ter troco.
Dois dias, três e nada Fui de novo à casa dele. Quando toquei a campainha, ele abriu a janelinha e de lá mesmo perguntou o que eu queria. Estranhei a falta de modos, mas me controlei:
- Acho que precisamos conversar.
Conforme ele foi berrando lá de dentro para que eu sumisse da sua vida, eu comecei a chutar a porta desesperada. Quem ele pensa que eu sou para falar comigo desse jeito? Seu estúpido, grosseirão. Ontem mesmo, era meu namorado, ia ao cinema comigo, jurava eterno amor, hoje quer chamar a polícia para me prender. Eu não podia suportar isso.
No jardim havia uma primavera que arranquei com raiz e tudo. Quem disse que primavera não serve pra matar um homem? Taquei a primavera na janela, machuquei minha mão inteira nos espinhos, virou um sangue só. Depois passei a mão suja de sangue na parede branca da casa e manchei tudo de vermelho, de propósito. A primavera não o matou. Ficou lá, enroscada na grade de proteção toda torta como eu. Mas os vizinhos saberão que aqui mora um homem capaz de fazer uma coisa dessas com uma mulher.

Ivana Arruda Leite

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