quinta-feira, 8 de março de 2007

Câmbio Negro (da série "Mulheres sob Descontrole")

Foi tudo por dinheiro. Meu Deus! O que a gente não faz por dinheiro?!
Já fiz de tudo nessa vida e nunca fui mulher e negar serviço! Nunca! Já fui faxineira, secretária, manicura e nunca me envergonhei de nada não. Mas dessa vez foi demais.
O moço chegou e disse que eu tinha o perfil. Tinha rosto marcado de mulher sofrida e guerreira. E eu ia ter cara de quê, com essa desgraça de vida? Ficou olhando pra mim por mais de meia hora, de cima abaixo, analisando e pensando no que faria comigo, e eu nem sabia do que se tratava. Mas ele foi esperto, falou logo de valores antes de tarefas.
Agora, vem cá meu nego, eu aqui nessa miséria, matando um leão por dia para fazer esses meninos crescerem, vou lá negar dinheiro? Era mais do que eu ganhava em quase um ano! Enquanto ele falava, eu já pensava até na reforma aqui na casa. Um puxadinho no fundo, uma área de serviço... e eu viajava tão longe que nem prestava devida atenção às explicações do moço. Concordei, fosse lá o que fosse.
Era coisa de artista, peça de teatro, sei lá o quê. Quando fui aos ensaios, tinha até a tal da Maria Bethânia. O lugar era tão grande que me deu medo de assombração. Ela cantava: “quem me pariu foi o ventre de um navio, quem me ouviu foi o vento vazio...”.
Lembrei de tanta coisa enquanto aquela voz fazia eco, que sentia calafrios de tristeza e melancolia. O moço me explicou então, que eu seria uma negra trazida em um navio negreiro. Mas gente, nunca andei de navio! Fingi que entendia enquanto ele falava de cenas, de atos e de milhões de coisas que eu nunca tinha ouvido. Minha vontade era de sair correndo de lá.
O negócio era o seguinte: eu seria a negra transportada em um navio, que optaria pela alegria do samba e da alfabetização. Tinha uma parte em que eu tinha que cantar: “Vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas...”.
Ah, quer saber, larguei tudo e fui embora. Como é que é? Ia ter que fingir a alegria de uma negra dentro de um navio negreiro? Isso já era demais. Sei bem tudo o que minha raça sofreu. Agüentar fingimento enquanto um mundarel de gente me assistia, com cara de encanto pela desgraça dos outros? Era isso que ele queria que fizesse: mostrasse a alegria de ser desgraçada na vida.
Já representei quase tudo na vida, mas hipocrisia não! Pelo amor de Deus!
E ainda por cima, eu ia ter que tirar a roupa.
Ah moço, a única roupa que tiro é a do varal!


Samantha Abreu
foto: Isabel Santana

9 comentários:

Leo Bueno disse...

Mulheres que brigam com suas mazelas ou que têm medo de provocar suas dores. Mulheres que buscam o amor mas, pouco depois, mostram que têm medo deles. Ou seja, com suas contradições e instabilidades, são sempre nossas adoradas mulheres.

Eu, de tanto gostar - ou de tentar compreender - as mulheres da minha vida, pirei com uma e senti a mágica de outra. E, mais do que nunca, aprendi a não dar parabéns no 08/03. Lá no blog explico o porquê.

Beijão, supervisora!

Diogo Lyra disse...

Samantha, você deveria pensar em lançar um livro só com essas histórias!!! Pena que já pensaram no título "Mulheres a beira de um ataque de nervos"...

obs: putz, quando você resolve publicar alguma coisa vale logo por uma semana!!!!!
bjs

fabrício fortes disse...

gostei bastante..
e quanto ao comentário do diogo.. é mesmo uma pena.. seria um ótimo título.

Anônimo disse...

tua denúncia é tão sutil... tão doce, que a gente nem percebe...

parece uma daquelas mensagens subliminares!
encantadora!

Marcello Lopes disse...

Olá.

Obrigado por visitar meu blog e pelas palavras ...

Linkei seu blog no meu.

Espero que vc aceite.

beijos.

F. Reoli disse...

Mal ela sabe que já está nua: de alma!!!
Belo texto, escrevi um continho chamado "Quasi Vida na Veneza dus Pobri"... ela podia se enquandrar bem com meu personagem...rs
Beijos

4rthur disse...

Bizarro, Samantha.

Rê Ruffato disse...

Uma pintura. Vira uma imagem seu texto e isso é que é bacana! Engraçado vc citar Maria Bethania, minha inspiração para um dos meus posts e minha salvação de um domingo enfadonho.
Beijos, poetisa.

tali disse...

Sá, concordo com o Diogo, demora, mas quando sai...
Vc escreve muito bem, enquanto leio fico dando risada! Escreve um livro só de contos, pq a mont blanc pra autografar na niote de autógrafos vc ja tem !
beijos