segunda-feira, 16 de abril de 2007

Aspirina


Quem de nós, solteiros, nunca olhou para alguém na rua e pensou se aquela pessoa não seria, talvez, o nosso grande amor ou aquela única coisinha que falta pra deixar nossa vida mais colorida, nossa alma mais leve e nossos problemas mais simples...
Todos sabemos que vivemos fugindo desse assunto quando estamos sozinhos e mal amados. Mal amados, que fique claro, digo no sentido e não ter um amor ou muitíssima dificuldade para encontrá-lo. Nos fazemos de auto-suficientes e fingimos que estamos avulsos por livre e espontânea vontade. Afirmamos, categoricamente, que não queremos mesmo compromisso, mas sim apenas um casinho aqui, outro acolá.
A mais pura e cretina mentira. Mentira daquela tão grande que até nós mesmos acabamos nos convencendo disso: de que não queremos alguém para amar de verdade, amar inteiro, incondicional. E nessa ilusão, construímos nossas festas, nossas paqueras, nossas noites de sábado. Exceto aqueles sábados em que daríamos tudo pra ter um abracinho no sofá e um monte de pipoca. São nesses sábados em que explodem as recaídas e sofremos feito primeiro amor não correspondido. Saímos para as festas preparados pra encontrar alguém, mas não admitimos de maneira alguma. Sempre dizemos que se trata apenas de diversão com os amigos, muito longe de envolvimento amoroso que possa nos tornar dependente. Aliás, dependência essa que no fundo buscamos incessantemente. Buscamos alguém pra nos aquecer, pra cuidar da nossa gripe, da nossa manha, da nossa birra. Alguém pra trazer sorvete no almoço de domingo, pra comprar sonho de valsa no cinema. E se essa pessoa gostar das festas com nossa família então... jogar baralho com os tios, rir das piadas nos primos. Essa pessoa se torna insubstituível, e quando esse amor acaba - pois acredito que o amor não seja mesmo eterno - achamos que nunca mais haverá outro alguém, e que seja mesmo melhor ficar sozinho à se envolver tão profundamente. Voltamos à ilusão da auto-suficiência.
Admiro as pessoas que fogem à essa regra, já que toda regra tem sua exceção. São pessoas sempre abertas e dispostas a amar. Pessoas que não tem vergonha de sofrer e adoecer por amor. E vale a pena citar que esses mutantes adoecem e se levantam para amar outra pessoa como quem se levanta da cama pela manhã no primeiro dia de férias... e isso se torna tão incrível quanto poético. Já nós, bobos independentes, estaremos sempre amando alguém sem essa pessoa sequer desconfiar, pois estaríamos vergonhosamente assumindo nossa cruel necessidade e nosso tão repugnante âmbito de amor. Continuaremos saindo com os amigos e olhando pessoas que poderiam ser nossa famosa cara metade, mas estamos bem demais sozinhos para nos envolver. Estaremos ainda chorando em casa ‘naqueles’ sábados por não ter alguém pra abraçar no sofá nem pra nos levar uma aspirina na cama.
Mas também, quem precisa de aspirina...


Samantha Abreu
foto: Rita Hayword como "Gilda"

9 comentários:

Diogo Lyra disse...

Se já tem o "alguém" e se já tem a cama, a aspirina fica para os dias em que a conjunção "cama + alguém" não é assim tão desejada!!!!
Beijocas.

F. Reoli disse...

Uma crônica deliciosa... Eu tinha esses insights assim, às vezes no metrô, quem nunca teve essa experiência hollywoodiana de ver alguém te sorrir dentro de um vagão do metrô, no mesmo momento em que as portas se fecham e você ali parado, de pé na plataforma... adorei, moça bonita!!!
Beijos

Nao tem Sentido disse...

Samantha, muito bom! E para fechar, me identifico com o comentário acima. Situações como essa são corriqueiras, apesar de não estar no rol dos solteiros, hehehe

Bjs!

Gabriel disse...

E não é?!
Então, sabe pq não dá pra ouvir FMs? Pq elas têm jabás (grana rolando para tocar a música x 3 vezes ao dia)!
Ae, sorte de quem teve boas influencias no berço..
por isso, a gente faz na raça...

13ntos disse...

clap clap clap...
é sempre bom passar e ler Suas palavras... e fico feliz qdo vc passa por lá... parabéns à vc!
beijO!

ju disse...

eu já fui um mutante.
mas acho que perdi os poderes.

Paulo Galvez disse...

Beleza de blog - como poucos. Melhor ainda por ser de alguém de Londrina, a cidade de que tanto tenho saudade. Voltarei sempre. Abraço.

Gabi disse...

Muito bom seu blog e seus escritos.

Concordo totalmente com o que você escreveu. É assim mesmo que acontece.

E a gente se fazendo de forte.


Ainda bem que não preciso mais. Não mais, depois de fugir da felicidade e do amor por 10 anos...chega, né?

o Társis que me aguente agora : )

Beijos

Sammy disse...

Gostei muito do texto... já passei por isso muitas vezes, até resolver deixar pra trás o meu orgulho bobo... se puder, visite o meu blog... sucesso!