quinta-feira, 12 de abril de 2007

Jogos Íntimos


É estranho se fechar, se dar, se fechar.
Sempre fiz, às vezes até inconscientemente, esse jogo que é tão importante quanto cansativo. Digo isso em nome dos dias nos quais a gente quer apenas deixar pra lá as maquinações, largar mão das lutas e olhar o céu com olhos de caramelo. Acontece que nesse dia é dia de se fechar e não é a gente que decide. A vida nos impõe um ritmo tão louco que seguimos apagando fogueiras quando o que devíamos fazer é evitar os incêndios. Ou não, talvez.
Hoje, queria ver um filme espanhol deitada no sofá vestindo apenas minha camisola velha e macia, uma meia colorida e os cabelos ao alto. A bacia de pipoca ficaria sobre a barriga, enquanto ergo a cabeça sobre ela para chorar com uma história triste que nunca será a minha. Além do filme, eu ouviria apenas o suspiro da minha cachorra deitada ao lado do sofá, dormindo como criança.
Quando o filme terminasse, eu agradeceria mais uma vez pela vida que tenho, pelos amigos que acumulei e pelo sorriso que vejo ao espelho. Para esquecer aquela tristeza tão ficcional, eu colocaria uma música francesa sensual, daquelas que enchem a alma de desejos e frescuras infantis. Dançaria sozinha na sala fazendo a meia escorregar pelo chão, como quando a gente finge estar patinando. Cairia deitada de novo no sofá com uma gargalhada boba e sincera. Minha cachorra ficaria observando tudo com cara de compreensão companheira, pensaria irracionalmente: ‘ela é tão infantil’, e trocaríamos algumas palavras, mas ela me responderia apenas com os olhos e algumas rosnadas. Compraria o pão que sai às dezesseis horas na padaria ao lado e o comeria com manteiga derretendo, um copo de suco gelado e a boca cheia de farelos. Falaria novamente sozinha e de boca cheia.
Hoje, estaria me dando a mim mesma. Unicamente.

Só que, em dias úteis, a velocidade lá fora me arrasta, o sapato scarpin me aperta os pés e não posso comer pipoca na rua. Minha cachorra está trancada em casa sozinha e não há tempo para filmes europeus. Ameliè Poulain é uma tola. Não há do que gargalhar, não me lembro de desejos fúteis e dançar seria ridículo. Às dezesseis horas ainda estou no banco e o dinheiro não é suficiente. Preciso conseguir mais amanhã, logo cedo.
Hoje, a vida só me permite o fechar. É em dias como esse que mais acontecem suicídios

Samantha Abreu
foto: Lilya Corneli

9 comentários:

Leo Bueno disse...

Arrepios após a sua última frase. Imaginação pueril ao longo das letras que, por fim, ganhou um contorno de carvão.

Saímos da infantilidade à francesa para a realidade que todos queremos evitar, sem qualquer aviso. Será que são em momentos como esse que mais acontecem suicídios?

*¢£@üD!NhA''' disse...

Saudações...


Invad o espaço alheio e me delicio com um desabafo individual tão compressivo em massa; tão vivdo em raça igual de tempos que fazem desigual...
Conforto de saber que pelo menos em suspiros não nos demos em diferença e a moldura clara e solta do retrato que fizemos da vida, se coloca tão fraca e tão bela até no que se diz respeito à suicídios...

Belo texto.

Cuide-se.

Cordiais e saudosos cumprimentos...t+.

Rê Ruffato disse...

Me diz uma coisa: todos os seus textos são confessionais? digo, é vc mesma quem os sente?

Sobre esse, imaginei a cena (ando trabalhando demais com áudio-visual, entao tudo vira imagem).
É um belo roteiro...
Lindo, poético e triste.

SAMANTHA ABREU disse...

Rê! Rê!

não.. não são exatamente confessionais, mas tem grandes sentimentos aqui de dentro.

Sofro tudo o que escrevo sim, sofro o que é triste, e mais ainda o que é bom (porque sempre dura menos), mas muito mais do que vivê-los, eu apenas os escrevo!
ou seja: escrevo mais o que vejo do que o que vivo! hehehehee
beijos!

Diogo Lyra disse...

Belíssimo íssimo íssimo (com eco) este seu escrito! Ambas situações descritas - a deliciosamente lúdica e a cruelmente real - são tão bem retratadas, mas tão bem, que você me fez ir do 8 ao 80, emocionalmente falando...
Tá no meu top - mas quem sou eu pra rankear alguma coisa?!
Beijocas!

obs: veja só como são as coisas, hoje mesmo estava ouvindo uns sons aqui em casa e quando escutei uma música de um grupo chamado Pink Martini (não lembro o nome dela agora), em francês, estilo antigo, pensei cá com meus botões "acho que a Samantha vai gostar dessa". Lendo teu post vi que posso ter acertado...

ilsson disse...

É amiga, às vezes viver não dá pé mesmo... Obrigado belo elogio!

Leo Bueno disse...

Foi um mergulho tão gostoso na infância, nas nossas infantilidades que a Amélie relembrou, que foi duro digerir o último parágrafo. Ainda mais quando, creio que intencionalmente, ele saiu sem ponto final, como se uma urgência qualquer te tirasse das letras e te levasse para o suposto suicídio.

Dramaticidade fortíssima, Sá! Assim, depois de tanta sinceridade, nos obriga a sermos sinceros nos feedbacks.

Bjo!

Fabrício Fortes disse...

bem bom..

ju disse...

eu digo o mesmo.
gostei demais desse lugar.
volto sempre.