sexta-feira, 20 de abril de 2007

Palavras amarradas ao nó


Como se realmente tivesse importância, ele parou à soleira e me perguntou como eu iria embora. Respondi com um olhar, apenas. O nó à garganta me prendia as palavras.

E nada mais restava ali depois de tantos anos. Apenas móveis a serem divididos, cds repartidos e lembranças apagadas.
Eu nada dizia, mas continuava olhando para ele fazendo fotografia de um momento eterno. Nenhuma outra recordação, ainda que boa, seria mais forte do que aquela. Desprezo, era o que eu via entre os traços do rosto.
Agora realmente não mais importava como eu sairia dali, desde que o fizesse o mais rápido possível.

Em todas as vezes que a separação me assombrou, eu treinei as falas de um diálogo dramático, construí discussões imaginárias e reconciliações utópicas. Assim como seria então.
Mas ele estava tão incomodado que permaneceu parado à porta, esperando que eu encurtasse aquele sofrimento e fosse tão prática como nunca fora na vida. E eu não conseguia. Não tinha de onde arrancar o necessário gelo, a calma, o menosprezo.

Esperei por algum tempo que ele dissesse uma única palavra de esperança, que ele deixasse escapar uma simples impressão de amor adormecido, e que uma fagulha ainda permanecesse quente. Mas ele era um iceberg.
Naufraguei.
Desci as escadas com o peso das malas, o peso da alma, o peso da dor ficando insuportável a cada lágrima. Eu já me arrastava e embora tudo estivesse comigo, eu tinha ficado lá trás, coberta de neve.
E agora me doía o medo da saudade, que já se fazia tão imediata.

Fui levada por um táxi, enquanto pedaços foram se perdendo pelo caminho desde o terceiro andar.


Samantha Abreu
foto: lilya Cornelli

9 comentários:

nanci disse...

Eita, menina!

O texto é tão profundo que até parece que aconteceu contigo de verdade.

Separação deve ser "flórida". Peço a Deus que eu nunca passe por isso.

Beijo grande!

Nao tem Sentido disse...

Samantha, concordo com o comentário acima. Ja vivi uma situação destas, portanto. Mas realmente é incrivel a maneira q vc escreve.

Bjs

Rê Ruffato disse...

Ai, ai, as mortes da vida da gente...
e me diz se numa hora dessas dá pra acreditar que tudo vai passar?
beijos, darling...

Diogo Lyra disse...

De todos, é o endereço de si mesmo, é a perda da autoreferência, o que mais dói e demora, após passeios mil, a ser novamente encontrado...
Lindo.

F. Reoli disse...

Um sentimento fragmentado... mas a Phoenix há de ressurgir...
Te beijo!

Paulo Galvez disse...

Um certo incômodo ao ler...

*¢£@üD!NhA''' disse...

Creio que a falta do amor próximo dóis mais por ver que nós mesmos não o conseguimos saciar. A necessidade da substituição permanece em idéia vaga pela falta, e então desesperadora pela talvez permanência deste. Mas o único que PREENCHERÁ será teu próprio amor, em ver teu valor e prosseguir sem a dor do próximo, mas sim, com a verdade de seu próprio ser em amadurecimento amoroso.

Belo texto.

Fique bem....t+.

(Gostei de sua foto ;)

F3rnando disse...

Valeu, merci, grato.
Volte sempre!

Michel de Oliveira disse...

Oi menina! Como vai? Faz tempo que não apareço, mas é que eu ando meio ocupado.

E esse seu texto... Bem, não tenho muito o que dizer porque me lembra um monte de coisas que eu passei. Chega até a me incomodar um pouco.

É isso. Beijo!