terça-feira, 8 de maio de 2007

Antônimas

Perto dela me sinto parte da mobília, em um canto qualquer, empoeirada.
Tudo que temos de gêmeas por fora, temos de estranhas por dentro. O jeito como ela anda me irrita, e me deixa nervosa a forma independente como ela encara a vida. Livre, Dona, Senhora.
Enquanto ela entra e sai pela porta, estou sentada aqui, observando. Pés firmes, pisando apressados. Mãos carregadas de vida, escapando entre os dedos. O ar em torno dela é quente por conta da febre que ela possui, crônica.
Eu estou gelada, parada, cansada.
Dizem que tudo o que eu teria de bom ficou para ela, porque foi arrancada primeiro. E eu a odeio por isso.
Repudio tudo o que ela representa e tudo o que ela me ausenta. Desde crianças. Roupas iguais, para almas tão diferentes. Ela é a vida em festa, enquanto eu sou a morte à espreita.
A morte escondida na cristaleira empoeirada.


Samantha Abreu

6 comentários:

Diogo Lyra disse...

Ó mórbida semelhança...
Texto sinistro, nelsonrodrigueano na veia!!!
(de alguma forma, mais uma das formas assumidas pelas "mulheres fora de controle")
Beijocas!

13ntos disse...

mais uma vez, belo texto...
pegando no teu passado, vozes femininas?? tenho ouvido muitas ultimamente, belas cantoras acabei descobrimento com a ajuda dos downloads, hehehe... voltando um pouco mais, 'semântica', eu já escrevi sobre isso, e coisa de saber o q e como dói... depois eu posto pra vc tentar entender melhor... beijO!

Rê Ruffato disse...

Mortes, em todos os seus sentidos... gostei da analogia que fez no meu blog. E vc volta ao assunto aqui.
Quanto à febre, a que eu me referi hj é vital, se é que me entende, rs.
Beijao, mulher.

lizandra disse...

Sami...amei...mais uma vez né...adoro todos...
beijão

F. Reoli disse...

Gêmeos - seja pessoa ou pensamentos - são sempre fontes de inspiração e causam mesmo essa sensação estranha de mistérios e de ser "diferente" no "igual"...contrapontos belíssimos no teu texto, baby
Te beijo

Linda disse...

Antônimas é um luxo...não sei...sinto-me em tempos outros..."mãos carregadas de vida..." afff!! Qtas imagens antagônicas que tornam o poema inteiro, apesar da ode ao irrecuperável! rsrs! "A morte escondida na cristaleira empoeirada"....é....perfeito!!
Amplexos demais!!