sábado, 12 de maio de 2007

Canino

Tiro minhas sandálias de cor crua com salto de cortiça.
Alpargatas de salto alto. Ponho meus pés no painel do carro dele.
Sou a carona. Carona na vida dele.
Ele consegue dirigir e olhar meus pés. Eles estão sujos. Ele diz. Cheios de craca. Ele diz.
Isso me machuca. Tiro meus pés. Os dois. O esmalte está saindo.
Meia hora depois no tal motel da Glória. Ele lambe meus dedos um a um.
Lembra o cão que achamos na rua.

Mara Coradello
escritora suicida