terça-feira, 15 de maio de 2007

Sub-Missão (da série "Mulheres sob Descontrole")

Sou mulher submissa como minha mãe, minha avó e todas as minhas antepassadas. É tradição. Detesto mulheres que inventam de querer trabalhar fora e conquistar o mundo corporativo. Essa de querer pagar as contas serve pra mulher que nunca experimentou o que é depender de um homem. Homem de verdade, estou dizendo, hein.
Arnaldo é meu homem de verdade. Paga minhas calcinhas de lycra, meus cremes da avon e todo aniversário ele me dá um presente caro. Ano passado ganhei uma máquina de fazer pão. Ele pensa tanto em mim que sempre procura facilitar meu esforço.
Por isso, quando ele volta do trabalho estou sempre cheirosa e preparada para recebê-lo, de janta posta e prato feito. Sou um exemplo para minha família. Corro o dia todo deixando tudo do jeito que ele gosta e as almofadas prontas para aconchegá-lo no sofá depois de um cansativo dia de trabalho. Coitado, ele chega sempre exausto!
Não tenho do que reclamar. Acordo todos os dias bem cedo, antes do Arnaldo, para preparar o café da manhã. Ele não pode sair sem comer, de jeito nenhum! Logo que ele vai trabalhar, eu inicio os afazeres da casa, começando por lavar as roupas. No tanque. Prefiro lavá-las à mão para que não esgarcem ou estrague os colarinhos das camisas do meu marido, que é sempre tão caprichoso na forma como se veste. Cuido das suas roupas com tanto carinho, como se fossem minhas!
Quando as crianças acordam, ajudo-as com as tarefas da escola, pois o Arnaldo não aceita que elas tenham nota vermelha no boletim. Deus me livre disso acontecer, Arnaldo me mata! Então fazemos juntos os deveres, pacientemente.
Depois, faço o almoço, elas comem e vão para a escola. Passo o resto do dia atarefada com a limpeza e com a faxina. Fico até emocionada quando falo disso!
Ao final da tarde, quando as crianças voltam, me apresso em arrumá-las para que não atrapalhem o Arnaldo. Ele detesta esperar para tomar banho. Troco as toalhas, pois a dele tem que ser lavada e macia, todos os dias. Meu marido é tão asseado! Fico até orgulhosa!
Só é uma pena porque depois que ele chega eu não posso ver televisão. Ele reclama que eu converso durante os programas e o atrapalho. Por isso, tenho que ficar no quarto enquanto ele se atualiza com os jornais. Mas, é bom porque me adianto em algumas costuras e bordados e já o espero na cama para nossa noite de amor.
E assim me sinto mulher. Por inteiro.
Arnaldo sim é homem de verdade! Não é desses que permitem mulher independente, não. Por isso que essa mulherada está aí, perdida, de cabeça revirada.
Não se faz mais homens como antigamente. Homens que mandavam na gente, simplesmente.


Samantha Abreu
foto: As Horas

11 comentários:

Diogo Lyra disse...

Se o Arnaldo fosse bom marido mesmo, vez por outra dava umas porradas nessa guria - só pra manter acesa a chama do amor...

Falando sério agora, gostei do pano de fundo das novas postagens, isto é, a nociva mediocridade masculina em relação às mulheres. É difícil acreditar como certas coisas sobrevivem e, diria, se ampliam, mesmo nos dias de hoje. Por isso tem tanto lesbianismo chic: mulher pegando mulher e, quando vale a pena, um marmanjo.
SAlve Los Hermanos!!!

F. Reoli disse...

Amélia é que era mulher de verdade!!! rs
Beijos

lizandra disse...

Ai que vontade que deu de torcer o pescoço do Arnaldo...que cabra safado!!!...rss
Eu heim...e viva a modernidade..submissão NEVER!!!
amo vc lindona...
bjo

Társis Valadão disse...

ISSO que é mulé.
Ô coisa boa. E ela góxsta!!!

Rê Ruffato disse...

Afe, como diria na minha terra, deu até "gastura".
E olha que eu queria experimentar um relacionamento "ele me sustenta", mas lendo o post acho q não rola.
Rs...

Nao tem Sentido disse...

se eu fosse mulher, nao queria ser casadaq com o Arnaldo

Bjs

Nanci disse...

Olá, Samantha,

Descobri seu blog através do Blog do Diogo Lyra, e toda vez que entro, me delicio...
Bjs

Nanci disse...

Ok, ok.

Se um dia o Marcelo ficar desse jeito quando a gente se casar, eu mando ele de mala e cuia de volta pra casa dos pais!

Ah, faça-me o favor. HEH!

Anônimo disse...

Viu só? Queimaram sutiã, e o diabo. Deu no que deu :-P

Adorei o blog. Tem conteúdo. Parabéns.

Bom fim de semana prá você.

Juno

http://junofoster.blig.com.br

Talita disse...

Samantha, não quero ser redundante, mas é uma delicia ler coisas boas!
Mas, cá pra nós....bem que vc queria ser assim né?!
hahahahaha

Beijokas, da prima temporariamente sustentada pelo marido, cumprindo o papela de mãe aciada , mas nunca, nunca, nunca submissa! peloamor né!

yara disse...

Uowww.. texto mto bom, a foto do filme as horas dá um otimo intertexto com essa serie, levando a pensar os personagens de virginia woolf em MS. Dalloway e o conto AMor de Clarice Lispector. Perfect!