sábado, 2 de junho de 2007

Rascunho e Ana Maria Machado

O site é muito bom. Eu recebia o jornal e era ainda mais maravilhoso. Mas o que quero contar é o seguinte: estava eu, ociosa, fuçando o site do Jornal Rascunho quando achei essa entrevista com Ana Maria Machado. A entrevista é inteira maravilhosa e Ana Maria é esplendida. Fala coisas tocantes e dá naturalidade ao mundo.

Vou colocar aqui alguns trechos nos quais ela conta sobre sua paixão pela nossa também tão amada Literatura. Adorei. E deixo o link para quem quiser ler o resto (
CLICA AQUI!). Vale a pena!

Livros na trouxa
Nos últimos dois anos, fui chamada para fazer palestras em vários lugares diferentes - em universidades, na Câmara Brasileira do Livro, na Bienal de São Paulo -, e o tema era sempre "A importância da literatura". Nisso, há uma pergunta implícita: será que esse troço ainda vale alguma coisa? Não passa pela cabeça de ninguém chamar alguém para dizer por que é importante respirar, tomar banho ou dormir. [...] Mas a importância da literatura na minha vida é total. Eu nem desconfiava disso - de que era a literatura. Para mim, eram histórias. Eram livros. Sempre vivi cercada deles. Não porque minha família possuísse bibliotecas riquíssimas. Nada disso. Mas prezava muito o livro. Meu avô paterno era um imigrante. Veio de Portugal já com alguma idade. O meu bisavô, sogro dele, é que tinha vindo para cá muito pequenininho. Mas meu avô veio já com 20 e poucos anos, formado em Farmácia. E trouxe com ele uma trouxa, na qual vinham dois livros. Livros que eu herdei - um deles, uma gramática latina.

Ler histórias
Minha mãe trabalhava na Biblioteca Nacional. [...] A gente sempre tinha livro em casa, emprestado ou não. Aprendi a ler sozinha muito cedo, estimulada por esse ambiente. Quando fiz cinco anos, ganhei de presente o Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Foi um encantamento enorme. Li e reli aquele livro. Reli para filho e reli para neto. É um livro que me acompanhou a vida toda, assim como vários outros do Monteiro Lobato. Depois, saí lendo tudo que encontrava pela frente. Para mim, isso era "ler histórias".

Mais importante do que eu
Minha mãe teve nove filhos e ficava lendo em casa, enquanto amamentava. Às vezes eu ia falar com ela e ela dizia: "Espera. Me deixa acabar isso aqui antes". Então devia ser alguma coisa mais importante do que eu, do que os meus irmãos. E eu queria estar naquele mundo também. Eu tinha um exemplo de leitura em casa. Depois, fui estudar Letras. Fui professora de Literatura.

Um acréscimo
A gente pode ler teatro e ler ensaios, mas as coisas mais imediatas, o romance e a poesia, nos permitem viver outras vidas. Temos muita curiosidade de viver outras vidas, de sair um pouco da nossa. E a gente não pode sair de verdade. Não podemos morar em outra cidade, casar com outras pessoas, ter outras profissões. Mas na literatura vivemos essas experiências, não como uma fuga, mas como um acréscimo. Como possibilidade de entrar na pele de um outro e se sensibilizar. Esse enriquecimento que a literatura traz é imediato. Os estados de alma que a poesia evoca, muito fortes, nos permitem crescer, experimentar outras vivências. Sem elas, ficaríamos mais pobres.

Érico e o amor duradouro
Há também o encantamento da linguagem. [...] Eu devia ter oito anos. Foi no dia da minha primeira comunhão. Ganhei de uma amiga do papai um livro do Érico Verissimo, A vida de Joana D'Arc. Ela achava que vida de santo era um presente bom para quem estava fazendo a primeira comunhão. Aquele era um livrão grande. Eu olhei para ele. Vida de santo? Não quis nem pegar. Num primeiro momento, nem dei importância para o livro. Mas sempre tem uma hora em que você pensa: "O que vou ler hoje?". Passaram-se dias, meses, semanas. Eu já tinha lido tudo o que tinha na casa. E peguei aquele livro e o folheei. Será? Abri o livro, para ver o que é que tinha ali. E, logo na primeira página, eu leio: "Lá vêm duas pombinhas saltitando pelas pedras da estrada". Aí, chegava-se mais perto, como o zoom de uma câmera, e o Érico escrevia que não, que não eram duas pombinhas. Eram "os pés descalços da menina Joana". E eu parei. E disse: "O que é isso? Como alguém faz isso?". Aquilo era mais que Monteiro Lobato. Era diferente ou era uma outra coisa. Aquilo me pegou. Li aquele livro com fascínio. E depois li Aventuras de Tibicuera, de que não gostei tanto, mas era do mesmo autor. Me apaixonei pelo Érico. Botei os nomes dos personagens dele nos meus filhos. Foi um caso de amor duradouro.
(...)

Um comentário:

Diogo Lyra disse...

Muito legal mesmo, dei uma pasada lá...