sexta-feira, 22 de junho de 2007

Um dia de Mãe

Foto: Margarida Delgado

Um dia de mãe

Ela lembrava de um dia que ainda não havia existido. Sonhava constantemente com a criança que esperava da adoção. Já tinha até lhe dado um nome: Estrela.
Enquanto Estrela não a fazia mãe, ela se sentava frente ao espelho e passava horas contando para si mesma como era seu sonho e como seria aquele dia:

“É estranho porque nem tenho idéia de como a Estrela é, mas não consigo deixar de fantasiá-la. Esse dia está na minha cabeça e sonho com ele desde que imaginava ter meus próprios filhos.
É inverno e neva. Nesses dias não há aula e, por isso, a deixo dormir até mais tarde. Quando abro a porta do quarto, ela está quentinha na cama e eu digo baixinho:
— Querida, está nevando, não precisa se levantar.
Ela adora esses dias nos quais é pega de surpresa e não precisa ir à escola.
Mais tarde, quando acorda, chega à cozinha vestida com seu pijama de flanela e eu faço seu chocolate quente, bem forte, como ela gosta. Então, falamos sobre o que faremos naquele dia. Ela corre para a janela porque gosta de ver o limpa-neve raspando a rua e fazendo montanhas de gelo branquinho.
Corremos de volta para o quarto e eu escolho seu vestido, pois o que ela quer vestir não é quente o bastante. Ela já sabe se vestir sozinha, mas eu a ajudo porque adoro vê-la de braços ao alto, fazendo o vestido cair sobre o corpo ou balançar as pernas, depois de sentada na cama, enquanto eu tento calçar-lhe as botas. Vamos ao passeio para que ela possa patinar e, quando se distancia um pouco, fica olhando para trás, para conferir se a estou observando. Há muitas crianças que fazem barulho e se agitam, porém ela prefere ficar ali comigo. Depois, a levo ate a lanchonete e a deixo pedir batatas fritas, o que, para ela, significa um banquete. Na mesa, ela me conta sobre seus colegas de escola, suas brincadeiras ou qualquer coisa que passe pela sua cabecinha. Ali ficamos durante horas, até que me dou conta de que estamos rodeadas por outras mães e seus filhos, e eu sou apenas mais uma delas.
De volta, enquanto caminhamos até onde estacionei o carro, ficamos ouvindo o som de nossos pés afundando na neve nova. Dois passinhos dela para cada um dos meus. E, se mais uma vez não tiverem limpado a neve da calçada, eu vou à frente para lhe abrir caminho. Ao voltarmos para casa, eu me dou conta de que as horas voaram e eu não fui trabalhar. Já nem me preocupo com o emprego. Nesse dia, sou apenas mãe.”

De repente, se percebe estática diante do espelho e se lembra que o dia de ser apenas mãe não é aquele. Sai apressada, pois perdeu a hora em devaneios, mais uma vez.


Samantha Abreu
(texto baseado na personagem Eillen, do filme Casa de los Babys, de John Sayles)

9 comentários:

¬¬ disse...

Essa coisa de se ver como em espelhos nos textos por aí a fora é coisa boa demais...

Bem, talvez as vertigens não sejam de todo malefício, né?
Se tivesse uma ludibriação com a Estrela, teria vertigens com sonhos diárias e periódicas...

Diogo Lyra disse...

Hum, até fiquei curioso para ver o filme...

junior disse...

Olá! Seu lindo blog está devidamente linkado. Abraços

Juno

http://junofoster.blig.com.br

Fabrício Fortes disse...

muito bom, mais uma vez..
essas esquisitices da alma humana.. de repente, plim! e tudo se transforma em outra coisa.

Linda Graal disse...

bom bom muito bom!!!
adorei, como sempre!! hehe

beijo

4rthur disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
4rthur disse...

Ser mãe, sentimento enigmático que foge à compreensão total dos homens de maneira geral...

F. Reoli disse...

É sempre esse PRAZER maiúsculo te ler... te beijo!!!

Margarida disse...

Olá

É um texto muito bonito.
E a foto também.

Obrigado pelo cuidado que tens em colocar sempre o nome do autor das fotos, mas essa foto não é minha, embora tenha umas muito parecidas.

Um brijinho

Margarida Delgado