segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Ponta de Estoque, da série "Mulheres sob Descontrole"

Era a última parcela. E não haveria mais.
- Vamos então?
- Cara, não posso gastar um centavo, pelo amor de Deus. Preciso que você me ajude. Não me deixe comprar nada, por favor.
- Somos duas! Tá combinado então.

Três vitrines e a empolgação da resistência. Putaqueopariu, o que é aquilo? Passamos frente à vitrine e observo uma blusa roxa combinando maravilhosamente com uma calça cargo. Ambas devidamente acompanhadas de uma pequena e reluzente placa piscando ‘liquidação’. Amiga que é amiga ajuda nessas horas, ela me puxa pelo braço, me arrastando pelos corredores e tentando mudar o assunto.
- Você sabe com quem fulano (nem presto atenção ao nome) está tendo um caso?
- É minha cor preferida.
- Menina, já tá todo mundo sabendo!
- Bicho, tá barato pra car...
- Pára! Nada disso.
Outra vitrine. Uma bota marrom, discretamente envolvente. O mesmo pequeno letreiro reluzente e, de tão atordoada pelo tom daquele roxo, não percebo que ela também foi fisgada. Constrangida, me pára no meio do corredor e pergunta:
- O que você achou daquela bota? Pode ser sincera.
- A roxa?
- Não! A marrom.
- Só se você voltar comigo lá na outra loja.
- Ai... Beleza!

Entramos pela porta da loja de calçados e observo ela se transformar em uma onça faminta. Quando se senta para provar as botas, vejo o vendedor caminhando cauteloso, escondido atrás de uma pilha de caixas. Ela prova todas, leva três. Sem um pingo de racionalidade. Depois, o olhar saciado, o sorriso encantado pela satisfação de ser endividar para mais três ou quatro meses.
Enquanto isso, meus traços mostram a total impaciência. Chega e me doer o estômago.
- Pronto? Vamos lá agora?
Entro como um furacão atravessando a loja e me espremendo entre outras insanas por liquidação que se matam por blusas e calças de todas as cores. Dou três ou quatro cotoveladas e peço a tal blusa roxa. A vendedora, cara de revista Vogue, me olha e diz que só tem tamanho médio. Eu minto, é claro:
- Ah! Dá!
Ela se contorce, fazendo cara de espanto, e vai buscar. Experimento. Se a blusa tivesse som, ela estaria berrando para os quatro cantos do shopping para que alguém a salvasse. Não cabe. Me senti uma heroína romântica protegida por um lindo espartilho púrpura.
- Está um pouco justa – sussurro quase sem fôlego – mas vou levar.
A capa da Vogue arregala os olhos esperando uma explicação.
- Estou em um regime radical. Daqui uma semana ela vai estar perfeita.
Mas se trata de uma blusa de modelo básico, que serve para qualquer estação. Se não der tempo de usar nesse inverno, certamente usarei nos próximos. Isso é um consolo, por isso aproveito para levar um jeans. A manequim ambulante me incentiva:
- É queima de estoque!
Escolho um modelo tradicional e separo. Minha fiel escudeira me apressa, pois temos outras lojas para visitar. Quando estou indo em direção ao caixa vejo uma jaqueta preta, meu modelo preferido. Estendo a mão para alcançá-la e quase sou espancada.
- Já é minha! Grita uma moça alta com cara de poucas amigas. Até porque nessas horas mulher nenhuma é amiga.
- Mas você vai levar? Insisto eu, como se não me bastasse o que já tinha comprado - Pela cara notei que sim.
Saí da loja repleta e completamente realizada. Meu rosto exultante, iluminado. Vamos tomar sorvete. Ela com suas botas e eu com minha combinação de roupas em remarcação.
Conheço tanta gente que só se veste em liquidação, poxa. Isso é normal. Minha prima faz questão de sempre inverter as compras. Aproveita as promoções de verão para comprar casacos maravilhosos e sempre deu certo. Tudo bem que ela ganha bem mais que eu, mas também não tem autocontrole. É da raça.
Sei que sentirei remorso assim que chegar em casa, quase sempre compro roupas que nem me servem só para aproveitar os preços. Além disso, meu regime já dura quase três desgraçados anos, sem sucesso.
Febre de liquidação é a pior de todas. Deixa qualquer pneumonia no chinelo. Alucinações, inconsciência. Tem até recaída. Sei que, depois de alguns minutos, sempre juro que vou ficar sem gastar por todo o semestre, mas em uma semana estou lá de novo: incontrolável.
Enquanto a ponta é do estoque, a loucura é completa.



Samantha Abreu

9 comentários:

Diogo Lyra disse...

Nesse contexto o cartão de crédito representou para as mulheres a "descoberta do fogo"...

lyS disse...

Eu tenho uma tática infalível: esquecer propositalmente o cartao de credito em casa. Fico sofrendo horrores olhando as vitrines, mas meu bolso nao fica machucado hohohoho.
Bj

Mila disse...

Sammyyyy, volteiiiii!!!!

Eu sempre digo: comprar é um ato político-social. Gastando, vc redistribui sua renda!

Beijocas

Jana disse...

kkkkkkkk Retratos da vida real!!!

Mas sabe eu nem estou olhando vitrine pra não cair em tentação, pq ando numa fase realmente sem verba pra qualquer peça que irá ficar perfeita depois de um regime!
kkkkkkk

Beijos

*¢£@üD!NhA''' disse...

Assim eu agradeço o nascimento do Brechó!

Hahhaha

;******** querida!

Marília Silva Tavares disse...

Estava louca por uma sandália preta... comprei duas do mesmo modelo, que não pára no meu pé!! Por que? E vc não sabe?... liquidação mesmo uai!!
ahahahahahahahahah
Beijos

4rthur disse...

quando passeava com mulheres no shopping, não entendia essa fixação desmesurada por sapatos, como se fossem verdadeiros botos ou sereias com seus cantos irresistíveis.

Até que passamos em frente a uma livraria, e eu comecei a ouvir a mesma melodia...

Cin disse...

KKKKKKK perfeito!
Entendo perfeitamente tudo que vc escreveu...e como entendo!

Talita disse...

Meu Sá do céu......quantas vezes vivemos essa mesma cena?! putaquepariu, muito bom!
Só não entendi uma coisa,não sou eu aquela prima que compra tudo pra outra estação né?! hahahahahaha

Não vai esquecer de mim no Jô heim!
bjks