sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A Liberdade é Roxa

Quando resolveu separar-se dele, tinha decidido nunca mais arrumar homem meloso, que a tratasse bem demais. Não gostava de ninguém ‘no seu pé’ e queria a tão falada independência feminina.
Ficou meses fugindo, enquanto ele a seguia implorando para que ela voltasse pra casa e o amasse de novo. Mas ela, irredutível, buscava a sua própria revolução sexual.

Anos mais tarde, apaixonou-se por Valdemar logo que o conheceu, jogando bilhar em um bar do centro da cidade. Ele tinha aspecto grosseiro, meio seco e direto. Do jeito que ela sempre sonhou. Em alguns meses já estavam morando juntos e, a partir de então, ela, finalmente, saberia o que era manter a independência, mesmo convivendo com outra pessoa. Poderia experimentar a liberdade de continuar participando dos encontros femininos às terças, no bar da avenida Paris.

Na primeira terça-feira, enquanto bebia e ria com as amigas, Valdemar apareceu para buscá-la à socos e ponta-pés. Apanhou tanto, que teve certeza de que se o tal polonês Kielowski tivesse vivido a liberdade, nua e crua, saberia que ela de azul não tem nada.
Ela é muito roxa. Igualzinho àqueles hematomas.


Samantha Abreu
foto: Lilya Cornelli

18 comentários:

Helder Hortta disse...

muita força nesse texto.

parabens

Tyler Bazz disse...

Ninguém mandou largar o bonzinho...

Yara Regina disse...

É mesmo samantha, essa Liberdade de azul nao tem nada.. texto lindo, mas é uma triste realidade..
Beijos e uma ótima semana pra vc.

Fabrício Fortes disse...

rsrsrs
um idiota que eu conheço disse uma coisa que talvez tenha a ver com essa história: "o amor é uma flor roxa que nasce no coração de um trouxa"..

Cin disse...

As aparências enganam.
Frase velha, porém sábia.
Temos que estar sempre bem cientes de onde estamos nos metendo.
Bjos e linda semana!

Jeniffer Santos disse...

nossa!
mt forte!


antes não tivesse trocado,mas é viver p aprender!

beijos!

Jana disse...

prova de que a gente sempre reclama de barriga cheia!

Beijos

Tarsis disse...

IMAGINA!? Mulher descontente?!?
Nããããão. Isso non exsiste!

;-)

FINA FLOR disse...

que crônica mais bem amarradinha, querida!

parabéns! finalizou belamente!

uma pena que para alguns a liberdade seja roxa, né?

beijocas

MM.

Diogo Lyra disse...

Tem um velho samba carioca em que o cara diz asim:

confesso ao meu melhor amigo/ gosto demais dessa mulher/ tudo que eu vejo de bom eu compro pra ela/ pra não ter o que falar de mim/ mas quando ela disse o que faltava eu gostei/ é pancada que eu ainda não dei/ não dei mas ainda vou dar/ naquela que é dona do meu lar/ se procedo assim é porque tenho qualidade/ vou dar pancada pra preservar a amizade

Tô de volta!

Priscila disse...

Oi, Samantha!
Como diria o "célebre" Lourenço do filme "O Cheiro do Ralo": A vida é dura! rs
Bjs e boa semana,
Pri.

virna teixeira disse...

samantha,
parabéns pela participação nas escritoras suicidas.
a poesia é uma droga pesada.
a frase que citou não é minha, é de may queen of scots :-)
um abraço,
virna

virna disse...

correção: mary

F. Reoli disse...

Gostei... embora acredite que algumas mulheres mais muderrrnas preferem mesmo o roxo da insensibilidade do que o vermelho das doces paixões...rs
Beijos

SAMANTHA ABREU disse...

é verdade, Reoli... algumas preferem mesmo, e é isso que tento 'satirizar'. rsrsrsrs

existe, em algumas, a dificuldade em encontrar o 'meio termo'. Ou são doces e submissas demais ou, então, acham que a revolução sexual mudou tudo e todos! Doce ilusão... rsrsrss
beijos!

Marília Silva Tavares disse...

Mas o que é liberdade afinal? Dividir a casa com alguém e continuar a ser vc mesma?...
É por essas e outras que eu prefiro criar as minhas teorias do que testar outras! Hehehe
Beijos, Ma.

Otávio Augusto Martinez disse...

Depois de dar uma vasculhada pelos mais recentes textos do blog percebo que há, especialmente na tua prosa, uma apologia ao feminismo ou, ao menos, a exaltação da mulher. Esse é um traço característico das escritoras modernas, mas, no teu caso, eu percebo que a coisa é descrita com mais crueza e realismo.

E tem mais: a liberdade não coexiste com a violência gratuíta. Muito provavelmente ela jamais fora livre.

Besitos

disse...

Acho que a liberdade em seu pleno significado não existe não. Mas se der pra exercê-la parcialmente já tá lindo. rs. Ótimo texto, pra variar.