sábado, 8 de setembro de 2007

O Sentido das Sombras

Não sei porque, mas quando acordei pela manhã essa sombra já estava aqui. Parada ao lado da cama, olhava-me misteriosamente, como se tentasse interpretar o sonho que tive.
Talvez, ela mesma fosse um sonho. O mesmo que tive na semana passada e no lugar da sombra encontrei um cachorro. Joguei no bicho, deu cobra. Começo a acreditar que não sei dar significado às minhas viagens e minha intuição não anda muito aguçada. Acho que fui abandonada pelo espírito do universo. E, agora, estou aqui, sem saber o que fazer.

Se eu levantar da cama, tenho medo de ser agarrada por esse vulto sem sexo, que me dá calafrios. Prefiro ficar deitada, esperando qualquer sinal de esclarecimento. O mesmo tipo de sinal que me fez sacar que você, realmente, estava indo embora, naquela noite. Teu olhar perdido, fixo na parede através do meu corpo, como se eu não existisse. Entendi o verdadeiro sentido da indiferença.
Mas foi tudo tão claro, que nem era preciso sexto sentido para perceber.

Queria ter tido essa mesma percepção escancarada quando vi aquele cachorro e, agora, essa sombra ao lado da minha cama. Queria entender o que desejam de mim ou o que pretendem me dizer. Se bem que, de repente, eu esteja apenas enlouquecendo por conta dessa busca alucinada por mudança urgente.
Sei que não vou mudar nada sozinha enquanto não entender tudo isso. Só levanto dessa cama quando alguém me explicar pra quê devo viver, trezentos e sessenta e cinco dias no ano, sem saber porque diabos você fez as malas só com suas roupas, mas deixou tudo vazio por aqui.

Pode ser aquele cachorro ou essa droga de sombra negra. Não importa quem me traga a resposta. Mas, até lá, daqui não me levanto.


Samantha Abreu
Foto: Katarina Sokolova

10 comentários:

Daniela Lima disse...

Samantha, adorei o seu espaço! E quando quiser publicar no Transitivos, o espaço é seu.

Beso, cariño.

Clóvis disse...

Hummm...
linhas não-lineares, histórias que oscilam, amores findos, malas, sombras, cobras, cãos, tudo há além da pulsação que emerge, aí dentro, esse desejo latente, essa saudade.

talvez um desvio de foco, o coração descompassado pedindo outras imagens, outros nomes, quem sabe.

vá no dicionário, procure os sentidos, mapei-se, converse com o teto. tetos só servem pra isso, para aturar pensamentos torpes.



e viaje sempre, mais.



texto muito bom.
beijo, querida.

Jota disse...

Sabe quem pode te explicar pra quê você deve viver?

Uma vidente, leitora de mãos e escritora de talento chamada Samantha Abreu.

Pra você ela vai fazer um preço todo especial. É satisfação garantida.

Boa sorte.

fabrício fortes disse...

existem sombras mesmo quando não há luz.. isso é que intriga;
mais uma vez, muito bom!

fabrício fortes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rogério Saraiva disse...

sombra da estátua mental.

anjobaldio disse...

Ôi Samantha, obrigado por tuas visitas. HAUTE INTIMITÈ já está linkado lá no anjo baldio. Um forte abraço.

Cin disse...

Nossa ânsia por respostas pode ser capaz de provocar coisas inimágináveis em nossas mentes.
Bjos e boa semana!

Priscila disse...

Olá, Samantha!
Parabéns por este texto! Lindo demais!!!
Tenha uma ótima semana!
Bjs
Pri:)

*¢£@üD!NhA''' disse...

Isso aqui é sempre tão incrível que nunca me deixa fazer um comentário significativo...

Eu vejo cada passo, e por tuas palavras vejo o resplandecimento sensitivo da sombra.

Lindo.

;***