terça-feira, 25 de setembro de 2007

Possibilidades Egoístas


Três vezes. Era o limite que ela tinha imposto.
Na primeira vez, o encontrou em um bordel, suado e bêbado. Conseguiu perdoá-lo depois que ele a convenceu com a velha desculpa da ingênua farra com amigos. Ela sabia que, no fundo, ele a amava de verdade. Esqueceu o que tinha visto e voltou a ser a mulher perfeita.

Quando, pela segunda vez, o flagrou com outra mulher, ameaçou matá-los, tentou um escândalo e disse que nunca mais queria vê-lo. Mas foi logo no primeiro chamego que se entregou e o perdoou. Reclamou por algumas horas dizendo que não era boba, nem mulher de ser enganada por homem algum. Mas perdoou, sem titubear.

Desde antes de se casarem, ela sabia do peso que ele carregava pela fama de mulherengo e inconseqüente. No entanto, viu nele uma possibilidade de felicidade da qual nunca tinha experimentado. Ele a tratava como mulher e a fazia sentir-se amada.

Foi tudo isso que desabafou à irmã, quando relatava a terceira vez que o encontrou saindo da casa de outra, também casada, do mesmo bairro. Exausta da luta contra o que, para ele, era instintivo, não sabia mais o que fazer.
Jurou que não o perdoaria mais. E, com total serenidade, explicou que se descobrisse mais uma traição, o mataria sobre o corpo da outra. Falou com tal calma e frieza que só assassinos conseguem ter. Isso o deixou com medo, mas não menos desleal. Por conta da atração que sentia por todo e qualquer rabo de saia, foi pego pela quarta vez com uma garota muito mais nova.
Ela matou os dois. Dois tiros. Acabou presa, mas vingada.
Dizem que se tornou uma das mulheres mais perigosas em convivência com outras presas, por conta do ódio mortal que passou a ter de qualquer mulher. Ameaça matar todas as colegas de cela.

Estava experimentando, agora, a infelicidade na qual nunca tinha visto qualquer possibilidade.


Samantha Abreu

foto: Katarina Sokolova

11 comentários:

*¢£@üD!NhA''' disse...

Por isso quwe pra mim a lealdade e a fidelidade possuem diferenças tênues e radicais.
Serem confiadas à própria confiança pessoal é uma identidade formada por laços de veludo; sem o grilhão do sofrimento envolvido na eterna espera.
Creio que expectativas nos frustram de primeira, ou ainda, na quarta vez já não mais se agüentam...hehehe

Cuide-se querida!

;*******

Jana disse...

Falta do principal amor, o próprio!

Beijos

anjobaldio disse...

O velho cotidiano demolido pelo delírio. Muito bom teu texto, sempre surpreendendo. Grande abraço.

Polly disse...

Espetáculo seu texto. Você fala de um cotidiano que os jornais contam de uma ótica diferente. Fala de nós humanos através de um olhar que tentamos não enxergar...adorei.

Polly disse...

Obrigada pela visita.
Também estou curtindo os textos dela e já adicionei na minha lista de links.
Beijos,

4rthur disse...

rodrigueano e comovente. o foda pra ela seria admitir que fazer vista grossa e aceitar o marido infiel seria o mais próximo da felicidade que ela tanto almejava.

Rê Ruffato disse...

Voltei, mocinha, e mais uma vez me surpreendo com sua intensidade e carga dramática.
Belo e necessário soco no estômago.
Beijos, querida.

Tarsis disse...

Mas a pergunta que fica no ar, é?
Ele era tão gostoso mesmo?

Se a moda pega. Me fodo...

;-)

Bacana o conto, a narrativa. Voltei a me apaixonar por textos simples, rápidos, fulminantes porém precisos!

Bj

Clóvis disse...

Coitado deste homem e suas fodas- relax-terça-feira.

Se eu fosse ela marcava com um garotão e sua pistola 2.0

Mas, enfim...


haha


Beijo, moça bonita.

4rthur disse...

segundo o segurança da porta me confidenciou, quinta à noite é dia dos maridos puladores de cerca na 4 por 4, puteiro high class do centro do Rio. Mulher de marido que chega tarde do trabalho na quinta tem que abrir o olho!

Tyler Bazz disse...

Olha! Eu nem tinha lido esse texto seu (ótimo!!!) quando escrevi aquele que postei hj.. (propaganda subliminar.. uhuhuhuh)

E a Marcela tá pra virar série, sim.. ;P