quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Complacência



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E porque não sabe me proteger, me afunda. Já que não sabe o que fazer aos domingos, me mantém presa ao jeito monótono de passar seus dias, chamando isso de vida.
Saio correndo, antes que você perceba e faça escândalo na portaria. O síndico sempre reclama, mas depois compreende. E eu perco algumas horas explicando suas formas estranhas de tentar provar que me ama, ouvindo conselhos de como me livrar do seu jeito passional e intenso quando te bate o medo de ficar sozinho.
Tenho vontade de te dizer algumas verdades, mas vejo em seus olhos uma inocência infantil de quem não sabe o que faz, cerro os lábios e deixo a vontade passar. Tento uma distração solitária ao som de Nouvelle Vague, desejando um momento de pura reflexão e sossego, mas você logo aparece à porta querendo uma dança ou um colo. Não resisto a essa sua carência. Tenho mesmo o coração de manteiga. E você sabe bem disso.
Já tentei te deixar tantas vezes, confesso. Penso, em alguns momentos, que não sei mais te ver assim, dependente. Sinto um fundo de pena, mas, ao mesmo tempo, tua necessidade de mim me faz forte, me faz bem. Se durante todos esses anos uma coisa tem compensado a outra, querido, vamos longe com isso. Posso prever nosso futuro: dia após dia, até que a corda arrebente de um dos lados. E espero não ser surpreendida por descobrir que sou o lado mais fraco.
Podemos sair pra jantar hoje, arrumei um lugar bacana e muito barato. Estamos na semana do aluguel, até deixei um lembrete na geladeira. Espero que, pelo menos nesse mês, você não esqueça do que deve fazer.
Chego logo, fique pronto às dezenove.



Samantha Abreu
foto: Katarina Sokolova

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26 comentários:

Gabriele Fidalgo disse...

Ai Samantha, adoro esses textos. E você consegue escrever muito bem uma situação, detalhes e sensações.

Muito bom mesmo!

Beijos

Yara disse...

"fodastico", nao tem outra descricao, maravilhoso. Sensações e emoções a flor da pele.. e casos assim vao loooooonge.. ;D
Beijooooos

Polly disse...

Maravilhoso texto...descreve perfeitamente a vida assim, repleta de comodismo e conformismo com se a vida jamais pudesser ser mais que isto...e pode ser!
Parabéns! (e obrigada pelos parabéns do meu aniversário, viu?)

PS: na agência que eu trabalhava existe um email vírus interno que chama "poema do dia"...tive uma grata surpresa hoje, o texto é seu e com indicação do seu blog e tudo...já é sucesso em BH, tá vendo?

Paulo Bono disse...

EXCELENTE, Samantha.
gostoso, corrido, real.
cada qual tem a sua necessidade.

graço abraço, menina louca.

ADRI disse...

Cotidiano... Beijos, Adri

jucosfer disse...

a dependencia emocial, o medo de ficar sozinho...
ée um problema que deve ser encarado de frente, com seriedade...

é complicado.
ou não.

MIGUEL BARROSO aka Girassol disse...

belo texto, gostei

Jana disse...

Me parece aqueles relacionamentos que apenas um oferece...

Mas bem...

Quem sou eu pra opinar!

Beijos

paulo dauria disse...

Isso me lembra alguns relacionamentos que acompanho de perto, pensando, "Meu Deus, aonde isso vai dar?"
Vai dar aí, em lugar algum, pedindo conselhos ao síndico...
Mas ao menos servem de inspiração para boa literatura!

Grande Beijo
Paulo DAuria

Clóvis disse...

Opa, quanto fôlego.
Tá cada vez mais afiada, moça.
Me emocionei e me surpreendi, mesmo.


beijocas.

Polly disse...

Calma, calma...não se assuste. Email viral é o nome que a gente dá quando encaminha um email para um grupo de pessoas. No caso do POEMA DO DIA, é um grupo de amigos publicitários, de muito bom gosto, formado por 20 pessoas que recebem um poema que é selecionado por uma amiga da agência, todos os dias. É só para adoçar a manhã com Quintana, Lispector, Carpinejar e agora você...entendeu? É coisa entre amigos, mas sempre de bom gosto.
O texto selecionado por ela hoje foi o "E depois da revolução sexual", mas sempre devidamente creditado e com o endereço do seu blog divulgado. Uma ótima coincidência, eu achei.
Beijos....

lowcura - Rodrigo de Souza Leão disse...

Sempre tem um q gosta mais.

Paulo Castro disse...

Parecem bolas, batendo uma na outra, afastando, pegando impulso na aresta da mesa, mas assim, cotidinamente seguro, não tem o frio na barriga da queda na caçapa.
Dez.
Chama o Daniel Galera pra aprender.
E ouvir Nouvelle Vague é, como dizem minhas amigas bibas, TUUUDOOOOO.
rs.
Beijos e o meu emprestado.
°

anjobaldio disse...

Muito bom. Vivemos no limiar da vaguidão.

Pan disse...

Como disse alguém que postou no meu blog: "quem souber, de fato, o que quer que atire a primeira pedra!".

Beijo, mocinha!

Notícias Mentirosas disse...

Fiquei com vontade de comentar a foto de abertura, no canto superior esquerdo.
Ela é excitante, juro.
Nada mais a declarar por hoje. Ah, fizemra uma entrevista cmg para um trabalho de faculdade acerca de blogues e perguntaram que blogues gostava de ler ou visitar. indiquei o seu! :D

bom feriado!
gabriel.

disse...

Samantha, obrigada pela visita. Tô encantada com o teu blog. Voltarei sempre, pode ter certeza. E tô impressionada como tu escreves mto, em vários blogs. Um dia eu consigo isso tbm. :-P

Vou te linkar, tá? Bjs, moça.

KARLA JACOBINA disse...

[Escrevo para ser outras tantas]

e como consegue!

beijos!

*

poupéezinha disse...

Compreendo essa letargia, a amarra que nos prende o pé, e dificulta um respiro maior. Não faz tto tempo assim. Me sinto olhando a beira da água, só que mirando-a por debaixo. Mulher, como sempre, fisga o leitor pelo âmago-
Muito bom.
Beijos!!

ju disse...

meu deus, mudou tudo aqui.
:)

Tyler Bazz disse...

E é uma coisa ruim parecer que boa parte desse texto foi escrita pra mim?? Eu hein...

;P

Aren't cha? disse...

Profissional é outra coisa!

Suas palavras são simples, impactantes e convictas!

Walter Fripp disse...

riquíssimo em imagens, e sutilmente surpreendente.
gostei muito, moça..

Maz disse...

Nouvelle Vague arrasa :)
essa estranha obsessão te consome?
costumava me ligar todo dia as 8h eis que um belo dia o telefone se calou. E meus medos, como os de muita gente, de ficar só, me sentir só. Se tornaram reais. Re-aprendi a viver. Todo dia repito essas palavras até que minha mente entenda que tudo isso não passa de um sono ruim.

4rthur disse...

ótimo!!! menina manteiga, pára de escrever tantos textos belos, porque eu tenho de ir trabalhar!!!

Claudia Sousa Dias disse...

pois Samantha...

tive um relacionamento assim...

mas a pessoa em questão escondia uma prepotência monumental, debaixo da carência que acabou por se tornar opressiva...

CSD