sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Por Pura Sensitividade

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Ela soube desde o começo. Quando criança tinha mania de adivinhar as pessoas pelas cores que usavam e, quase sempre, acertava. Ele estava de verde. Ela explicou que o verde é uma das cores que mais facilitam a aproximação. Até Bakhtin teria desenvolvido uma teoria a respeito do diálogo não-verbal entre os dois. Ficou no ar.
Foi tomada por lembranças há tanto tempo escondidas, daquelas que a pele cobre e roupa nenhuma deixa transparecer. Até conseguia ouvir a voz de Nina Simone (parecia que Nina cantava com ecos do banheiro, acompanhada de um saxofone vindo da sala). Era assustador e, ao mesmo tempo, fascinante.

Viu que ele a observava desde os sonhos infantis nos quais se via caindo de alturas enormes e que, depois, a mãe dizia que isso acontecia porque estava crescendo. Mal sabiam, ela e a mãe, que, desde aquela época, ela nunca parou de cair. São, até hoje, tombos atrás de tombos que as pessoas insistem em não reparar. Só não entendeu, quando o viu parado naqueles sonhos, porque ele não corria para segurá-la nos braços. Talvez fosse porque ela, de fato, estivesse amadurecendo de um jeito ou de outro e aquelas quedas seriam apenas as primeiras das tantas outras.
Ele conseguiu que ela voltasse a um jardim secreto que sempre guardou em seu quarto e que, quando tudo parecia perdido, corria até lá para se esconder, antes que o mundo virasse de pernas para o ar. E agora ele que estava lhe revirando a cabeça. Pisou em todas as flores, as mais vermelhas pareciam sangue escorrendo dos pés. Correu entre as árvores, tentando fugir de toda a ameaça do amor e da dependência que ele representava.
Enquanto o encarava, todas as músicas que já tinham lhe tocado de alguma forma, vieram à sua cabeça, aceleradas. Era um pout-pourri de canções encantadas que a induzia pedir que ele lhe desse um canto à cama, um espaço à vida. Todas as letras cantavam sua futura história e todas as melodias casavam-lhes as almas. Ela procurava, em vão, um ritmo vulgar que o levasse para longe.
Seus livros caíam sobre sua cabeça e de nada adiantou levantar as mãos para tentar se proteger. Poetas lhe faziam saraus. Repetiam, todos juntos, versos tão melancolicamente lindos e berravam o nome dele a cada personagem que pudesse fazê-la, novamente, ferver por amor e vibrar por puro sentimento.
Nos álbuns de família ela o viu em todas as fotos. Ele estava sempre parado, observando-a, velando-a, exatamente como agora, a poucos metros de distância.

Ela soube desde o começo. Além da semântica, todo o passado retrospecto em um piscar de olhos o tinha feito cair exatamente em seu contexto. Todas as feridas que tinha lambido sozinha e todas as dores curadas com lágrimas serviram para fazê-la entender o que ele pretendia, parado daquele jeito, desde sempre.


Samantha Abreu
foto: Lilya Corneli
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17 comentários:

Pan disse...

do que o verde é capaz...

julienni Campos disse...

Samantha, passei aqui para agradecer sua presença em meu blog e me deparei com mais um lindo trabalho seu. Mais uma vez quero lhe parabenizar pela realidade que seus textos impõe. Encantador!

julienni Campos disse...

Será que eu poderia add seu blog nos meus favoritos??
Obrigada, aguardo respostas.
bjos

julienni Campos disse...

Será que eu poderia add seu blog nos meus favoritos??
Obrigada, aguardo respostas.
bjos

Paulo Bono disse...

bem, acho que não estou preparado para a maturidade.
abraço, Samantha

Polly disse...

O verde talvez seja mesmo a esperança...esta expectativa que a gente cria em descobrir aquilo que, provavelmente, a gente já sabe desde o começo.

Belíssimo texto!

garota complexada disse...

Não é de se surpreender que ela sabia desde o começo. Com esse poço de análise!

Yara regina disse...

Caramba, que texto lindo! Totalmente denso, mas de uma beleza incontestavel..
Já disse que adoro seus textos né?
Add vc nos meus links.
Beijaoooo

jucosfer disse...

intuindo o verde...

Jeniffer Santos disse...

lindo!
x)

SAMANTHA ABREU disse...

Aloha!

Rê Ruffato disse...

Não costumo usar verde, mas prometo repensar isso.
Querida, show de bola, como sempre.
Beijocas de fã.

Cin disse...

Samantha querida,
Viajo nos seus textos...adoro de verdade.
Bjos flor!

*¢£@üD!NhA''' disse...

O mundo íntimo de Sofia...

;)

Lindo; chega tão perto de nós...

;************

poupéezinha disse...

MUITO bom Samantha..
Também adorei seu espaço- uma identificação muito clara entre as nossas linguagens. Vou vir mais por aqui-
Beijo!

Fábio Reoli disse...

Estou numa fase meio "preguiça" pra escrever, mas estava com muita, muita saudade de te ler...
Beijos

Menáge à Trois disse...

Samantha!

Olha, com toda a franqueza de banheiro feminino, e adorei esse texrto aqui sobre o verde, mas AMEI aquele que está lá na garganta da serpente. Aquilo, poderia ser a minha vida, acho que por isso ri tanto.

Não queria dizer que você escreve bem pra caramba para não ser repetitiva, pois suas histéricas loucas paranóicas que odeiam gente que ficam bem de laranja pois eu fico horrivér. HORRIVÉR, mas foda-se. A senorita manda bem, muito bem.

Beijo,
Como Eu