sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Do que não houve...

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Porque, de repente, deu-se conta de que era saudade. Mas foi surpreendida ao descobrir com isso, que saudade não existia apenas para o passado, mas também para o anseio de futuro.
E soube que essa dor, talvez, fosse a pior.
Saudade de momentos ainda não vividos.
Rezou a Peruda, o garoto guerreiro tupi e que presidia o reino daquela loucura.
- Mas como é que se quer de novo uma coisa que ainda não teve? Perguntaram, ela o pequeno viajante do vento, tentando enganar aquela serpente que a convencia ao pecado e ao desespero.
E a serpente, esperta e sagaz, explicou que o amor era a tal maçã do poder. E que era possível, sim, que ela sentisse tal febre por o que era apenas cobiçado, afinal o coração feminino era cheio de previsões e razões obscuras, devia segui-lo. Encheu seus olhos com imagens vivas da tal vida plena, soberana. E ela se viu senhora-protagonista daquela história ainda não escrita e sentiu, mais uma vez, a pontada da falta, do espaço de vácuo exato para o encaixe das tais quatro letras: A-M-O-R.
Entregou-se.
Amor e serpentes não são boas companhias quando juntos. Nem menino guerreiro pode vencê-los.



Samantha Abreu
foto: Katarina Sokolova
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27 comentários:

Lunna Montez'zinny disse...

O que me intriga é sempre a saudade, essa que existe até mesmo quando não é possível e faz você abraçar o que não existe. E esta te provoca o gosto e outros desejos mais. E o que é? Ilusão talvez.

Paulo Castro disse...

A saudade do futuro.
Isso é bonito, pois só está reservado esse sentimento quem guarda uma bela porção de inocência em si. Uma inocência que não pode ser mordida por nenhuma serpente. A maçã e a serpente: tema da Queda.
Mas só porque caímos é que existe amor e a consciência do amor. Sem o sofrimento como alteridade, comparação, o amor se torna existente.
Caimos todos, mas como anjos.
Anjos que percebem o amor.
( Por isso, malditos em sua ingenuidade, pureza, beleza, amorosidade...)
Beijos, Sa !
°

Solin disse...

onde vc acha essas fotos q falam tão por si só?????

Marcus Vinicius disse...

Saudade do que não foi, saudade do que estar por vir...

Vc acabou escrevendo sobre meu momento atual... Ah poetisa!que lindas palavras são estas que florescem de tí!

bjs

The Immature Girl disse...

esse post me lembrou essa música:

Eu sinto falta de você
mas eu não o conheço
tão especial
mas ainda não aconteceu
você é magnífico
mas eu não o conheço
Eu me lembro
mas ainda não aconteceu

e se você acredita em sonhos
ou o que é mais importante
que um sonho pode se tornar realidade
Eu o encontrarei

Estou tão impaciente
Eu não consigo esperar
quando obterei meu abraço?
quem é você?

Agora eu sei que você chegará
quando eu parar de esperar

Eu sinto falta de você


I miss you, Björk.

Paulo Bono disse...

saudade do futuro se parece com pressa.

abraço, Samantha

paulo. disse...

passei pra te convidar a ver minha vers�o texto/pocket, hehehehe
beijos
http://trechosetreguas.blogspot.com
phc

Tyler Bazz disse...

dos textos que me deixam zonzo.


Não sei mesmo qual a pior saudade...

Fabrício Fortes disse...

"saudade do futuro".. muito tocante.
poeticamente belo..

Jota disse...

Uvas Thomson.

Sabe, aquelas verdinhas, sem sementes? É assim com teu blog, quando eu passo mais tempo que o devido sem abrí-lo. Eu gosto de pôr várias uvinhas na boca de uma vez só e aí o suco é bom... Eu abro teu blog e sei que vai ser uma doçura só, um flash de vida atrás do outro, estimulante.

Batata.

Jota disse...

Amor e serpentes se entredevoram.

Às vezes, não.

Jota disse...

Acreditar que abraçar o mundo é possível é uma teimosia saudável que a mais renitente liberdade proporciona, eu acho.

A gente acaba "falling from grace", mas o chão é um sinal de que tem-se a oportunidade ímpar de tomar uma nova impulsão.

Coitados dos derrotistas...

Jota disse...

Sim, sim, o amor é mais um labirinto, e como o de Teseu, esse labirinto de tesão y otras cositas más tem, não um, mas vários minotauros, um vestido de bufão, outro de toreador, outro de garçon de algum café do Quartier Latin, outro de pierrot, outro de...

Vai derrubar todos eles, vai.

Eu vou.

Jota disse...

Pois a literatura nunca me atrapalhou a vida. Talvez algum dia em que eu tenha pretendido caminhar e ela tenha me feito levantar vôo inadvertidamente...

Não.

Nem aí.

Jota disse...

Lar, doce lar.

Agora vou fuçar os versos e as descontroladas.

Beijos!

Bianca Feijó disse...

É possivel sim saudade do que não existiu,do que não viu...
E esta saudade do anseio pelo futuro é dilacerante.
Mas dizem que seria pior se tivesse a ausência desse sentimento.
Lindo texto,como todos!
Beijos!

Anônimo disse...

Não, nem me fale do que não houve. É muito triste sempre, não importa se quando tivesse havido tudo fosse o contrário do esperado. É muito triste. Me deixa sem palavras - sem postar mil anos na Abstraktus, para não falar daquilo que lembra a minha a dor e ainda pode ativar a de outra pessoa, já tão magoada, imperdoável comigo, com -

Calebe disse...

Não, nem me fale do que não houve. É muito triste sempre, não importa se quando tivesse havido tudo fosse o contrário do esperado. É muito triste. Me deixa sem palavras - sem postar mil anos na Abstraktus, para não falar daquilo que lembra a minha a dor e ainda pode ativar a de outra pessoa, já tão magoada, imperdoável comigo, com -

Jana disse...

Das maiores saudades que tenho a de momentos ainda não vividos é a que me dói mais...

beijos

anjobaldio disse...

Às vezes sinto estranhas saudades de coisas que nunca existiram, até de momentos que nunca vivi ou de lugares que nunca poderei ir.

jucosfer disse...

e a saudade??
aquela lá, quando aperta...
dói..


Bjos

Calebe disse...

Samantha, depois da tristeza amputada, venho visitá-la novamente - vontade de encontrar outro texto, uns versos, algo diferente do que escrevo e do que leio.

Um pouco antes de aparecer por aqui sabe no que pensei? Naquilo de que quando você voltasse conversaríamos melhor (minha surpresa ao entrar na página de uma menina que leu meus contos bobos e ainda os entendeu e, depois, conheceu várias pessoas que - não - conheci, por quem nutro certa admiração). Mas eu já sei: nós dois estamos abarrotados de compromissos, o tempo, velho inimigo e desculpa também, porque não aprendo a lidar com ele, porque isso e também porque aquilo.

Mas me diz, quando entra de férias? (Faculdade free... - lembro você dizendo, alegre).

Vou nessa. Abraços,

Calebe

Lais Mouriê disse...

Sim, querida, a saudade do futuro dói muito, mas muito mais!

Adorei e tocou fundo!

Bjos

Paulo D'Auria disse...

Talvez o amor não seja bom conselheiro, e da serpente não se precisa dizer mais nada. Mas o mais importante do conto é a essa sensação "E ela se viu senhora-protagonista daquela história ainda não escrita"
Ou seja, às vezes o melhor caminho, aquele que nos dita a razão e os bons amigos, não é o que queremos/precisamos escolher.
Como diria minha mãe: "Filho, é caindo que se aprende."

Beijos, menina

Paulo Galvez disse...

Putz, quem nunca sentiu saudade do futuro? Eu, por exemplo, tenho trocado a saudade convencional, do passado, por essa nostalgia do que ainda não se viveu.

Salve Jorge disse...

Amor e serpente
Ah, morte do ser que tente
Ser sempre
Amor sem risco
Risco sem ardor
Há de se esvair
Se perder
Sinuosamente...

4rthur disse...

lindo demais. parece que abri um livro randomicamente, numa página qualquer, e lá estava o melhor fragmento de uma bela história.

uma correção: A-M-O-R são quatro letras, e não palavras - embora signifique quatro milhões de coisas...

beijo!