quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A Armadura Moderna


...A força da vida era dolorida.
...Ela acordava cedo, olhos inchados. Ao se levantar da cama, sentia os pés arderem no chão gelado. A cada passo até o banheiro seu corpo estremecia e suava frio: era desespero lhe explodindo os poros, era a vida amanhecendo e a jogando para um cotidiano febril.
...Não queria mais aquela rotina de mulher moderna, cheia de afazeres. Desejava apenas sua cama e suas tarefas domésticas tão realizáveis. Sob o chuveiro, imaginava que a água levava pelo ralo toda sua revolta pelo despertar do dia. Ao banho cabia sempre a função de filtro entre sua vontade de permanecer dona de casa, e a necessidade de se jogar à vida que a esperava na rua.
...Ela resistia, mas depois de lavada com água e espuma, vestia-se com o empreendedorismo feminino e fingia satisfação o dia todo.

...Tudo recomeçava à noite.


Samantha Abreu
foto: Graça Loureiro
.
.

17 comentários:

Fabricio Fortes disse...

eu sempre considerei ma atitude extremamente machista essa de as mulheres obrigatoriamente serem independentes, bem resolvidas e de não saberem cozinhar.. rsrsrs
belo texto, samantha

KimdaMagna disse...

será que ela vai, evadir se dessa viciada rotina?
De futuro sem recomeços,

Xaxuaxo

Notícias Mentirosas disse...

Chapado!

E lá vem vc com fotos aburdamente fódas.
Adoro esse lugar, de vdd.

um bejo no coração
gabriel

Sérgio Luyz disse...

Pois é, na maioria das vezes não passamos de interprétes...poucos são aqueles que improvisam ou simplesmente abandonam o set...sua descrição desse "papel feminino" foi exata...sem exageros e sem omissões...valeu!

Bjs...

Bianca Feijó disse...

tenho uma amiga que não aguenta mais ser dona de casa.
De qualquer forma a questão é que é incrível o casamento entre suas palavras,simplesmente maravilhoso demais.

Beijos Sa!

disse...

Que triste, e bonito.

Estou sensível hoje.

Andréia disse...

talvez ela deva arumar uns filhos..rs

bjux amei o seu Blog!!!!

disse...

Ah, menina, as minhas personagens são sempre assassinas, maníacas ou simplesmente apaixonadas, o que, pelo menos na literatura, justifica todo o resto. rs.

Quanto a esse post, putz! Que foto! Que texto... ai, Samantha, tu és um insulto às outras tentativas de fazer algo literário. :P

Bjs pra ti, menina.

Maria Muadié disse...

Sam, a força da vida é dolorida. Bacana seu texto. Menina, não é fácil ser, diante de tantas expectativas- nossas e dos outros,
beijo

anjobaldio disse...

Muito bonito teu texto. Gosto muito.

Otávio Augusto Martinez disse...

E, quando se vestia, fingindo satisfação, tornava-se uma porquinha capitalista! hahaha

Um dia ainda vou escrever como você, menininha.

Te adoro.

beijos!

Oliver Pickwick disse...

Texto audacioso, de fina ironia. Não tenho certeza se as suas amigas - fãs de Simone de Beauvoir, vão gostar. Correr risco é preciso.
Beijos!

4rthur disse...

empreendedorismo!!! primeiro poema que vejo com essa palavra que ouço quase diariamente no trabalho!

Beijos, e boa rotina...

Ernesto disse...

Tudo sempre recomeça.
Com baixas.

Beijo!

D'angelo disse...

Achei que estivesse sozinha nesse dia.
:)

Jota disse...

O Ministério da Saúde deveria espalhar avisos a respeito dos males do uso continuado da rotina. Espalharia, se esse fosse um país sério. Mas então, se fosse um país sério, não seria um país.

Certo?

Fred Mitne disse...

posso parecer machista... mas, me interesso por mulheres frageis e que necessitam de protecao... que prescisam de mim...

uma mulher "moderna" e "independente" nao prescisa de ninguem... eh como excesso de perfume... brocha qualquer trepada... nos homens prescisamos sentir o cheiro natural da mulher...