segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Infertilidade


Dei três pulos dentro de um lugar chamado breu, e o que escutei foi eco. Eco do meu ventre seco, infértil, morto. Ele gritava com voz rouca e falha: “teu mundo acaba em ti, mulher. Teu mundo acaba em ti”.
Não tenho filhos, não sei produzir vida.
Sim, já tentei pular, espernear, pirracear.
Mas ele, o ventre, azedo,
me faz cara feia e passa dias emburrado, se contorcendo.
É aí que me doem as cólicas.
Mas vida, mesmo? Nunca.
Meu mundo acaba aqui, em mim.


Samantha Abreu
foto: Margarida Delgado

.

27 comentários:

leandro disse...

puta q pariu!!!

Paulo Bono disse...

porra, samantha, fiquei na merda.
abraço

Clara Mazini disse...

Com essas palavras, vejo todo um mundo...

D'angelo disse...

Sem nenhuma tangente.
:(

disse...

caraca, perfeito!!!traduziu toda a dor que estou sentindo...

Oliver Pickwick disse...

A infertilidade jamais vai ser a mesma depois deste texto tão marcante.
A sua capacidade de produzir textos de impacto, supera à daquelas caras do antigo Projeto Manhatann. Desse jeito, fica difícil sair da festa sem ser vista.
Beijos, prezada amiga.

Ana Cláudia Zumpano disse...

teu blog é MARAVILHOSO! a mulher forte como é, e sensível também, no ponto certo!
;)

Menina Lunar disse...

Puta que pariu! (2)

Cin disse...

Pensei, pensei e confesso que não achei o que dizer diante de um texto tão forte...

Paulo Bono disse...

sim, é bom.
já assistiu Irreversível? esse filme me deixou na merda mesmo. e é do caralho.
abraço, escritora.

4rthur disse...

naquele mesmo livro, o Demian, um personagem diz que quando uma ave nasce, precisa destruir a casca, que até então encerrava no interior do ovo o seu mundo. Então é isso. Para se viver, é necessário destruir um mundo. E construir outro.

beijo, saudades de vir aqui.

Bianca Feijó disse...

...e o pior é o mundo acaba em nós, e o melhor é que o mundo começa em nós...

Adorei a foto com o texto, perfeito!

Beijos Sa!

J disse...

Oi Samantha,

já te li algumas vezes e te conheço de comentário dos blogues do Paulo, Arthur e da Gabi.

Acho você um absurdo de talento e unicidade. Não tenho nenhum comentário bonito pra dizer sobre a infertilidade nem a morte, por serem dois assuntos que eu procuro evitar. Mas posso dizer que você é meio assim, que nem polém, espalha sementes de deixar tudo cheiroso.

Sérgio Luyz Rocha disse...

Digamos que todo mndo já disse o que tinha prá ser dito (e aí me ocorre que bendito é o fruto do vosso ventre que nem deus sabe como foi parar lá), então me finjo de interlocutor, e como tal perguntaria: já tentou pular, espernear, pirracear, mas e trepar, já tentou?
Interações.
Em tempo: Parabéns + uma vez...você é fera!!

disse...

Esse texto é forte.
Eu que não tenho um instinto materno muito aflorado, fiquei tocada.

Jana disse...

Sinceramente, não sei o que escrever... Não sei o que te dizer... PQP! Tão ruim quando não encontramos as palavras.

Beijos

Caito disse...

Oi Samantha, o negócio é o seguinte: escrevi um post sobre seu blog em um blog que mantenho com uma galera, na seção de recomendações. Tomei a liberdade de colocar um poema e um videopoema seu por lá, tudo bem? Não te perguntei antes , nem te entrevistei e nem falei sobre sua biografia ou coisa que o valha pq a idéia é dar um enfoque maior no blog em si e não apenas nos autores, para não deixar um "desequilíbrio de legitimidade", pois alguns blogueiros já são autores relativamente conhecidos, outros não. Até pq todos que tiverem a felicidade de seguir o link hão de te conhecer por aqui!

Dá uma olhadinha!
http://opensadorselvagem.org/
blog/oreversodoverso/

(é tudo na mesma linha, mas o link inteiro não cabe no comentário)

É isso aí, espero que goste!

Beijo

Heber disse...

Parabéns, divino texto!

Heber disse...

Uns geram vida sem cuidado, outros fazem a leitura cuidadosa dela.

;P

Nanda Nascimento disse...

Ai Samantha,

Que profundidade meu Deus!

Beijos e flores!!

SAMANTHA ABREU disse...

Ah! Quanta gente linda!

Germano V. Xavier disse...

Samantha, valeu a força lá no Clube!
Apareça sempre...
Sou daqueles leitores fiéis quando há reciprocidade...

Beijos no coração...

Germano

Dolfo disse...

Talvez em ti seja apenas o começo. Prazer.

Calebe disse...

Eu não pensava em ter filhos, até descobrir que este é um jeito de burlar a morte e continuar em vida.

Mas para ventres que não podem gerar essa vida continuada, eis a literatura - realidade tão próxima de seu poder.

(Uma coisa esse negócio do Calebe do Orkut. Inacreditável até agora.

Eu não tenho orkut. Quando me falou que pensava que eu fosse um Calebe que havia te adicionado no orkut, fiquei pensando: "nossa, que mundo esse, hein?...". Mas, de toda forma, que bom que esse desentendimento tenha sido solucionado. ^

E, me diz, o tal Calebe é gente boa, firmeza? Agora fiquei curioso com o xará.)

Valeu pelos comentários, pelos elogios. Agora mudei tudo por lá, e sempre que possível, estou atualizando, como agora, que acabei de escrever um texto. Quando puder e quiser, apareça.

Beijo,

Calebe

ronaldo braga disse...

que poesia: crua, sem esperanças, mas angelical.
totalizante, permitindo a vida um nascer ao inverso; a vida acabando em um mundo que acaba na propria vida.
um poema que valoriza a vida e que reclama a ausencia da ausencia.
adorei.
www.ronaldobragas.blogspot.com

Cabraforte disse...

já reproduzi muitas e muitas vezes, mas em apenas uma deu fruto e esse fruto, hj maduro éo que colho!


calma!


tudo tem sua hora!


prazer

Fred Mitne disse...

eh.. realmente o texto eh de uma profundidade incrivel... jah comentaram aquilo que achei...
mas posso deixar uma ideia...

projeto Snowflakes... jah ouviu falar???

agora, quanto ao sentimento sobre o ventre seco... somente o apoio de um verdadeiro amor supera tanta dor!