quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Palavras Amarradas ao Nó


.....Como se realmente tivesse importância, ele parou à soleira e me perguntou como eu iria embora. Respondi com um olhar, apenas. O nó à garganta me prendia as palavras. Nada mais restava ali, depois de tantos anos. Apenas móveis a serem divididos, cds repartidos e lembranças apagadas.
.....Eu permanecia muda, mas continuava olhando para ele fazendo fotografia daquele momento. Nenhuma outra recordação, ainda que boa, seria mais forte do que aquela: o desprezo. Agora, realmente, não mais importava como eu sairia dali, desde que o fizesse o mais rápido possível.

.....Em todas as vezes que a separação me passou pela cabeça, eu treinei as falas de um diálogo dramático, construí discussões imaginárias e reconciliações utópicas. Mas ele se mostrava tão incomodado que ficou parado à porta, esperando que eu encurtasse aquele sofrimento e fosse prática como nunca fora antes. E eu não conseguia, não tinha de onde arrancar o necessário gelo, a calma, o menosprezo.

.....Esperei por algum tempo que ele dissesse uma única palavra de esperança, que ele deixasse escapar uma simples expressão de amor adormecido e que uma fagulha ainda permanecesse quente. Mas ele era um iceberg.
.....Naufraguei.
.....Desci as escadas com o peso das malas, o peso da alma e o peso da dor ficando insuportável a cada lágrima. Eu me arrastava e, embora tudo estivesse comigo, minha vida tinha ficado lá trás, coberta de neve.
.....E então me doía o medo da saudade, que já se fazia imediata.

.....Fui levada por um táxi, enquanto pedaços foram se perdendo pelos degraus desde o terceiro andar.


Samantha Abreu
foto de M-Igor

25 comentários:

Lunna Montez'zinny disse...

A gente sempre deixa os pedaços, depois tenta juntar tudo e tenta fazer algo que nem se sabe bem o que com tudo que ficou. É sempre assim... Credo, hoje estou meio abaixo...

Polly disse...

Peso da saudade, peso da dor, peso do medo, peso da tristeza, peso do fracasso, peso da perda...tudo, menos o peso da nossa vida. De todos os pesos, o único que é capaz de tornar mais leva a nossa caminhada...ou retirada para uma nova etapa, um novo ser.

Lindo texto, como sempre.

Beijos

Anônimo disse...

aquele poema é uma resposta que deixei no blog da priscila manhães,minha amiga tradutora do rio. fiz pra uma paixão que me deixou mais louco e pirado que já sou. ms foi e virou só poesia.
cá teu conto é interessante.

beijos.

muita saúde e luz.

Cássio Amaral.

D'angelo disse...

Você escreve com tanta propriedade. PARABÉNS!!!

Anônimo disse...

Não percebeu as fagulhas escondidas na lareira daquele homem frio. É que há momentos que a dor não pode ser removida e o melhor é fingir indiferença. Enquanto você despedaçava sua dor a caminho de algum lugar, ele despencou na cama em que se amaram e, beijando seu travesseiro e sentindo seu cheiro chorou como uma criança.

marcos disse...

Não percebeu as fagulhas escondidas na lareira daquele homem frio.As mulheres, geralmente não percebem. Acreditam que apenas elas sofrem. É que há momentos que a dor não pode ser removida e o melhor é fingir indiferença. Enquanto você despedaçava sua dor a caminho de algum lugar, ele despencou na cama em que se amaram e, beijando seu travesseiro e sentindo seu cheiro chorou como uma criança.

Cin disse...

Já dizia Kalil Gibran: "O amor só conhece sua verdadeira profundidade na hora da separação".
Bjinhos!

Fabricio Fortes disse...

muito bom, samantha! rico em imagens.. é algo que faz ver antes mesmo de entender o significado das palavras...

FINA FLOR disse...

separações são sempre dolorosas, mesmo.........

e já que gosta de Marina, esse post podia ter a trilha "deixa estar, vai passar, com sorte tudo vai ser breve"... que tal?

beijocas, moça querida e talentosa

MM.

jupyhollanda disse...

Sá,

É extamente esse medo que eu tô sentindo hoje. É completamente despedaçada antes de me despedaçar que eu estou me sentindo hoje. Uma angústia, um vazio, uma M tão grande que só choro e seu texto fez me continuar a jorrar lágrimas sem nem uma gota de frio de neve ou iceberg por perto para congelá-las...

Amei!

Bjos

Ju

disse...

Seria tão mais fácil se quando acabasse, quebrasse algo dentro de nós ou do outro, simplesmente acabasse tudo, o contato, as desculpas, os "sinto mto", os "não dá mais, mas eu gosto mto de vc".

Lindo texto. Deu pra sentir daqui a amargura.

Paulo Bono disse...

é o seguinte. sejam os descontroles, seja a sensibilidade, você escreve bem sobre esta coisa tão gostosa que se chama mulher.

abração, samantha.

Nao tem Sentido disse...

eu estava sumido, mas vc continua a mesma,... ou melhor, cada vez melhor

bjs guria

Sérgio Luyz disse...

"Eu me arrastava e, embora tudo estivesse comigo, minha vida tinha ficado lá atrás [...]" - uau!!!!
É isso mesmo, tudo vem junto nas formas deixadas por tudo que vamos sentindo... é por isso que, às vezes, temos a impressão de que somos "outro"...
Garota, que pegada!!!

Oliver Pickwick disse...

Esses pedaços a que se refere, são contrapesos, carga inútil, como sacos de areia nos balões de navegação aérea.
O amor é como romance, em capítulos e sempre renovável.
Beijos, querida amiga!

Tarsis disse...

Bom, o texto é triste e bonito. não queria quebrar o encanto, mas vc precisa de um namorado o_0

Beijo..

anjobaldio disse...

É tão estranho ainda sentir este "peso" da existência, da água... Sempre bela e delicada tua poesia...

Nanda Nascimento disse...

Sempre esperamos atitude do outro, e nos tornamos inertes as adversidades.

Beijos e flores!!

Tyler Bazz disse...

lindo, lindo, lindo.

Bianca Feijó disse...

Sempre ficamos com essa esperan�a de ouvir alguma coisa no final, alguma palavra que pode mudar tudo,mas quase sempre nada muda...o que muda � s� n�s mesmos!

Procurei seu texto do concurso, a monga aqui achou depois de uma meia hora...rsrsrs.
Nossa, tem duas partes mesmo parecidas, na hora que escreveu no meu blog fiquei feliz achando que se um dia fosse a um concurso usaria esse texto, depois lendo o seu...que bobagem a minha...rsrsrs.

De quaqluer forma,amei os dois textos, o do concurso e esse que acabo de ler.

Beijos Sa!

Calebe disse...

Doído demais isso aqui. Prefiro não comentar nada, além do já comentado. Parece uma dor muito pessoal.

Um beijo

SAMANTHA ABREU disse...

oh não!
Oh, Não!
de pessoal não tem na-da.
é tudo fingimento!

Caito disse...

Poxa Samananths, o que mais gosto é que vc escreve sobre momentos "perdidos no espaço", que poderiam estar acontecendo em qualquer lugar agora, de uma menira discreta, cheia de silêncios, deixando na sombra (ou para imaginação do leitor) certas informações que outros iriram considerar importantes. São pquenos contos sem "porque" , puro sentimento. Muito massa, viva os silêncios literários!

Ah sim, gostartia também de te convidar pra visitar um site e um blog novo, o site chama O Pensador selvagem
http://opensadorselvegem.org ,
o blog chama O Reverso do Verso, está no diretório de blogs do Pensador. É isso aí,
beijo!

Femme Fatale disse...

Estou voltando à ativa com um novo blog! A propósito, sou a Garota Complexada (www.garotacomplexada.blogspot.com)

Fred Mitne disse...

o cheiro fica na memoria...
o gosto no tesao... e a dor???
a dor fica no coracao...