segunda-feira, 24 de março de 2008

Dos Sonhos Alternativos


.....Maria Lucia gastava todas as suas economias em bancas de jornal, comprando revistas com fotos de supostos namorados. Procurava sempre as que parecessem mais reais. Recortava todas e montava seu próprio álbum com os mais belos homens e mais desejados maridos. Andava pra todo lado com o tal álbum na bolsa.
.....Duas a três vezes por semana, ia a uma loja de noivas e a cada vez usava a foto de um noivo diferente. Antes mesmo que alguém pedisse, ela oferecia: “quer ver a foto dele?”. Arrancava com orgulho o recorte do bonitão e se gabava. Quando a vendedora dava trela, ela contava uma linda história de amor. Guardava uma história triste e sofredora para os dias em que não estava bem, pois conseguia, até, fazer algumas lágrimas caírem, disfarçadas.
.....Experimentava, ansiosa, os modelos mais caros, mais chiques e mais pomposos. Desfilava a tarde toda pela loja vestida de noiva e realizada.

.....Quando chegava em casa, Jerônimo a esperava nervoso e, aos berros, pedia pela janta. Ela já tinha ensaiado várias vezes para falar sobre casamento e vestidos brancos, mas ele não deixava que ela sonhasse com tamanha banalidade. O que importava era que as contas estivessem pagas. Cortava logo o assunto. Comia silencioso e caia na cama, cansado.

.....No outro dia, logo pela manhã, ela inventava um compromisso qualquer e aproveitava carona até o centro. Parava na primeira banca e se deixava, mais uma vez, levar pelos sonhos podados, abafados, amarrados.


Samantha Abreu
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...e também estou aqui ó Versos de Falópio
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23 comentários:

Julienni Campos disse...

Sah, li o texto e antes de comentar fiquei uns dez minutos refletindo sobre 'sonhos podados'. Na verdade acho que o vestido branco por si só, já significa um sonho podado, e abafado assim que a noiva o tira e diz olá a realidade!!
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Lindo lindo.
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Beijos

Fred Mitne disse...

e o pior eh que isso faz parte da realidade de muitas mulheres... casadas(informalmente) ou nao... de repente nao eh isso o que mais me deixa impressionado.. acho que mais estarrecedor que isso eh a total falta de dialogo entre duas pessoas que resolveram compartilhar a vida... a relacao se baseou em sexo(rasgacao pura)... quando eu era muleke, um dia meu avo me falou que eu deveria me casar com uma mulher que eu gostasse de conversar, aih eu perguntei pq??? sua resposta foi:

"Vai chegar um momento do relacionamento de vcs que vcs se darao conta que fizeram tudo... de todos os jeitos... e soh restarah o dialogo, a admiracao e o respeito... coisas basicas que farah com que vcs se amem ateh o fim!"

FINA FLOR disse...

ainda bem que existem essas ancoras chamadas "sonhos" que nos ajudam a não naufragar na realidade.......

beijocas e boa semana, querida

MM.

Jana disse...

Ahhh eu ando tão sensivel, que chorei de cantinho... Lindo texto!

Beijos

Clau[dia] disse...

É...
Às vezes nos impedem de realizarmos os nossos sonhos, mas isso nunca nos impedirá de sonhar.
E mesmo assim, eu acredito que podemos dar um duplo carpado e mudar essa questão :D
Seu canto também está lindo. É um prazer passar por aqui.

Fábio disse...

Gosto dessa maneira que a criatividade te beija e deixa no ar, através das tuas mãos essas histórinhas que nos fazem pensar...
Beijos

Sérgio Luyz Rocha disse...

Samantha, ficou alguma coisa em suspenso, alguma coisa dita (mas não transcrita) pelo texto que parece ter ficado prá depois...tipo de crônica que você fica inventando o antes e o depois...
Pra variar, bonitoooooooo que chegou a doer...

Bjs!!!!

Lunna Montez'zinny disse...

Ah! Só você mesmo para me levar a uma viagem - lembrei-me de uma colega da faculdade que montava álbuns com recortes de revistas. Todos a chamavam de louca, mais eu não, aceitava aquilo como sendo sua forma de ilusão. Afinal, cada pessoa tem a sua, porque ela não a teria?
Gostei da forma de ilusão que o seu personagem se permite. É intenso e tão intimo - porque mesmo sendo podado, ela encontrou um meio.
Beijos moça

Alex Sens disse...

Real e triste, puro e tão simples. Seria melhor se isso não existisse? Talvez, mas não teríamos literatura pra deslindar coisas como essa.

Adoreu teu vídeo ali embaixo, sotaque lindo :)

Beijos!

Pan disse...

Ai ai, mocinha... minha lista de elogios se esgotaram, tá? Sabe aquela coisa bossa nova de que "só resta um certeza, é preciso acabar com essa tristeza, é preciso inventar de novo um amor"? Então... lindo.

=*

Bianca Feijó disse...

rsrsrs...eu fazia isso!
Calma,não ia as lojas contar histórias,mas recortava os mais belos rosto masculinos e grudava na parede.
Hoje quando os vejo naquelas fotos antigas, acho-los horríveis...rsrs...

Beijos Sa!

Mary disse...

Tem essa coisa que opressão nenhuma pode nos tirar: os sonhos.
Lindo texto, moça! E haja inspiração! 3 blogs????
Ufa!
rsss
Bjinhos.

Cin disse...

Nossa que coincidência, hj tbém estou falando sobre podar, tolhir os anseios das pessoas, gente assim me causa repulsa argh!!


Bjinhos!

Mariana disse...

me identifiquei com a tal Maria Lúcia. exceto pelo namorado/marido não consiguiria viver com alguem assim. gostei do blog !

Ana disse...

Acho que todas temos um pouco de maria lúcia, sonhos abafados, amarrado...
Lindo, Samantha!
Beijo!

Salve Jorge disse...

Maria Lúcia
Mar ia, Lúcia
Mas ia Lúcia
Mal ia lúcida
Mas ia
Maria
Atrás de uma luz ia
Que fosse sua
Mesmo que noutro lugar...

Clóvis disse...

Lindo, Samantha.
Cada vez mais urdida, muito bom.


Beijos, querida.

Gabriel disse...

Nossa Samantha, vc escreve pra caralho.
Além de ter idéias muito legais, consegue colocar tudo num texto fluído, leve...

um beijo

Paulo Bono disse...

tenho uma raiva dessas sua personagens tristes. prefiro sempre as neuróticas.

abração, Samantha

Calebe disse...

Que viagem (a pena é que imaginar essa estória é não deixar de imaginar várias histórias desse tipo - só que mais absurdas).

A culpa é de quem? Ê, Babel maldita essa em que vivemos.

Trecho de uma música que "casa" com o teu texto:

"Tudo que ele deixou foi uma carta de amor pra uma apresentadora de programa infantil. Nela ele dizia que já não era criança, e que a esperança também dança como monstros de um filme japonês. Tudo que ele tinha era uma foto desbotada, recortada de revista especializada em vida de artista. Tudo que ele queria era encontrá-la um dia (todo suicida acredita na vida depois da morte). Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta. A vida quando acaba, cabe em qualquer lugar.
E a violência travestida faz seu trottoir..."


Beijo,

Calebe

Luciane Oliveira disse...

Ah, mulheres e seus anseios não revelados!!! Por que nunca conseguimos simplesmente virar para o "filodaputa" e dizer: aqui, ou casa ou sai da moita! sou moderna sim, mas menos sonhadora não!"

Rs... Beijos.

Polly disse...

De toda a realidade, restam os sonhos...mas é sempre bom sonhá-los de olhos bem apertos, que é pra transformá-los em realidade...da maneira que puder e der.

(fazia um tempinho que não vinha aqui...os textos estão todos maravilhosos!)

Oliver Pickwick disse...

É quase como naquele filme de Woddy Allen, A Rosa Púrpura do Cairo.
Beijos!