segunda-feira, 23 de junho de 2008

Torna-se, de fato, o amador...?

Li esse texto da Sunflower sobre o filme Tudo Acontece em Elizabethtown, e me dei conta de como, realmente, algumas coisas não se encaixam ou, mais ainda, passei a me perguntar se outras coisas devem, ou não, se encaixarem.
Ela diz que Orlando Bloom não entra no papel de Drew Baylor, o quase futuro suicida salvo pela morte do pai. O filme, no conjunto da obra, é ótimo (principalmente a trilha), mas a cara do cara, putz, é de matar! Ele simplesmente não tem expressão alguma. Perceba que essa é minha reles e humilde opinião (minha e da Sun). Quer outro exemplo? Brendan Fraser em Crash. Ainda bem, meu amigo, que o papel foi pequeno, porque, pra mim, o cara tem, e sempre vai ter, a cara do George, o rei da floresta. Ele tem cara de tão tonto, mas tão, tão, que até fazendo papel de pequeno burguês sério parece tonto (não que um pequenos burguês sério não seja tonto, mas tenho certeza que a cara lá devia ser de esnobe e não de tonto). Veja que coisa... não convence, saca? É como se o cara não conseguisse ser (pelo tempo mínimo necessário) quem ele deveria ser: o personagem.
Eu faria uma lista enorme aqui, assim como posso mencionar o contrário. Perceba a perfeição de Kevin Spacey como David Gale, em A vida de David Gale. É tão naturalmente ele, que não dá pra imaginá-lo em outro filme... você tenta, tenta, mas nada te vem à cabeça. É como se fosse o primeiro e único filme do cara. E, incrivelmente, isso acontece com todos os filmes dele [será que é isso o que determina um bom ator? Eu concordaria plenamente com esse critério]. O mesmo eu acho de Andy Garcia em Modigliani. Tenta assistir o filme e depois procurar as fotos do Modi no google. É exatamente a expressão do Andy, ou seja: o cara se veste da personae como se fosse ela própria.
... Aí, eu fico pensando sobre essa coisa de ser outros. O que pode (e deve) ser considerado, mesmo, como mérito: vestir-se de um personagem sem deixar que ele apague a sua pele por debaixo da roupa, ou tornar-se a fantasia de tal forma que sejam, você e ela, indissociáveis? E como se faz para (não) amar como disse Camões: “torna-se o amador na coisa amada, por virtude do muito imaginar”?
Se, pois, imaginação é fantasia, pra mim é, também, personagem. E amamos o outro como o outro, ou amamos o outro como puro figurino de nós mesmos?
Tá bom, tá bom, parei... é tudo cinema, caramba!
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E se seu saco ainda aguentar,
hoje tem poesia minha aqui ó: Versos de Falópio
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13 comentários:

isaias de faria disse...

bons filmes citados, gostei também das observasões feitas deles. fui ver no versos de falópio sua poesia, "insaciável" tem ritmo tem lirismo tem singularidade...tenho um blog onde posto meus poemas, e um dedicado ao cinema(junto com meu irmão e com um amigo)faça-nos uma visita. será um prazer.

On The Rocks disse...

oi, publiquei um texto seu no on the rocks. bj e apareça.

Sérgio Luyz Rocha disse...

"[...] amamos o outro como puro figurino de nós mesmos" - pura síntese da vida...grande acerto Samantha...é interpretar é isso, quer dizer, sintetizar toda uma vida nas falas e gestos de um personagem...grande sacada!!!

Mudei de casa, acho que ficou mais bonita, depois dá uma olhada...(e ajeita o link..rsrs)

Bjs!!

Gabriel disse...

Samantha!
Eu preciso de uma ajuda, na verdade. Vc poderia me passar seu e-mail? Seria sobre a formatação das postagens que vc faz, separando-as nos "graus de intimidade"...

Gabriel disse...

Então, por favor, me passa o seu mail Samantha!

Gabriel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
F. Reoli disse...

P.S. Sam... queria agradecer pelo texto que mandou na minha exposição fotográfica e pedir um grande favor: se possivel, postar um link indicando a exposição, pois pode ser que surja o interesse da SP Trans de transforma-la numa exposição física mesmo e conto com a galera pra dar uma bombada na audiência. O link é www.coletivokaos.zip.net
Agradeço se indicar para os amigos

Anônimo disse...

andy garcia perfeito como modigliani percebido em fotos do google é forçar a barra....

Jucosfer disse...

e o pior é que a gente pára para pensar nisso...
personagens!?!?
nós mesmos?!
A gente se reinventa tanto!

Sunflower disse...

Meu exemplo é totalmente esdrúxulo mas ilustra bem o que foi dito aqui.

Vc assistiu Homens de Preto com o Will Smith? já passou na televisão um carrilhão de vezes. Eles falam sobre as relações dos extraterrestres e os seres humanos e uma (eterna) batalha do bem contra o mal que vai ser travada aqui na Terra pelo controle do universo.

O ET mauzão chega, e procura a se apropriar de um corpo humano para passar despercibido na busca do seu objeto. Ele é uma barata, enorme, e com o passar do tempo vai ficando mais e mais incomodado de estar sob a pele de um homem, e vai andando mais torto, mais esquisito, mais incomodado.

É isso que alguns personagens são para alguns atores. Muito grandes. E fica esquisito ficar sob a pele deles.

Qtos aos bons atores, o que é o Dustin Hoffman????? Tootsie, Ray Man, Krammer vs Krammer, Hook, A Primeira noite de um homem...

Ele tá lá em cima, lá no topo da lista pra mim que nem o Spacey.

E qto amar os personagens ou amar o nosso figurino, eu voto no segundo.Gostamos dos personagens por eles apresenteram algo (por mais minúsculo que seja) da gente e se é para sermos representados, que seja acreditável. Amamos música, cinema, livros e as artes em geral por vemos nossos pedacinhos em todos os cantos, que nem pólem, proCRIAÇÂO. Não acho isso ruim, acho estupidamente lindo. É tão bom saber que nesse oceano de confusões que é o homem, tem a beleza que nos conecta, né?

Paulo Bono disse...

pois é.
O Fernando Meireles disse que detesta ator que atua.

abraço, Samantha

Salve Jorge disse...

Todo personagem
É uma imagem
De uma paisagem
Que de passagem
Se forma
Na sua cachola
Não que seja norma
Ser dessa forma
Mas essa miragem
Representacional
É o que estabele o normal
Para o nosso perímetro sensorial
E sináptico
Assim fica mais prático
É mais forte
Que o performático
De um ator qualquer
MAs que o Brandon Frasier é de lascar, isso é...

Cin disse...

Estava com saudade das suas filosofias.
Bjinhos!