sábado, 26 de julho de 2008

Las 7 Cosas

O que mais gostei, das 7 últimas coisas que li:

“Que estranhos e doces pensamentos brotam nas solidões montanhosas! – Certa noite percebi que, quando tratamos as pessoas com compreensão e estímulo, uma expressão de humildade estranha e infantil lhes perpassa os olhos envergonhados, não importa o que estivessem fazendo, não estavam certas de que fosse correto – cordeirinhos espalhados por toda a face dessa terra. (...) E percebi que não era necessário me esconder na desolação e que podia aceitar a sociedade para o que desse e viesse, como uma esposa – vi que, se não fosse pelos seis sentidos, visão, audição, olfato, tato, gosto e pensamento, a individualidade disso tudo, que é não-existente, simplesmente não haveria nenhuma fenômeno para apreender, na verdade não haveria seis sentidos nem individualidade.”
(Jack Kerouac, in Viajante Solitário, 1960)

“(...) negado o respiro, me foi imposto o sufoco; e essa é a consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é outro hoje o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio – definitivamente fora de foco – cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta, me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso, me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes.”
(Raduan Nassar, in Um copo de Cólera, 1978)

“Gosto de livros tristes onde tudo acaba mal. Meninas órfãs chorando à beira do fogão, madrastas malvadas que trancam meninas órfãs no quarto escuro, professoras que fecham a tampa do piano nos frágeis ossinhos da menina quando ela erra o dó-ré-mi, mocinhas sonhadoras que não casam, solteironas que metem a boca no veneno e não conseguem se matar, velhas que moram em casarões onde tudo faz barulho e ninguém faz companhia, lençol branco cobrindo o corpo, enterro sem ninguém pra velar, cova rasa, alma penada chegando à casa do capeta.
E depois?”
(Ivana Arruda Leite, in Falo de Mulher, 2002)

“Um quarto de hotel, para mim, tem a implicação de voluptuosidade, furtiva, fugaz. Talvez o fato de não ver Henry tenha aumentado minha fome. Pela primeira vez sei o que é comer. Ganhei dois quilos. Fico desesperadamente faminta, e a comida que como me dá um prazer duradouro. Nunca comi dessa maneira profunda e carnal. Só tenho três desejos agora, comer, dormir e foder. Os cabarés me excitam. Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar-me em corpos, beber um Benedictine ardente. Belas mulheres e homens atraentes provocam desejos ardentes em mim. Quero dançar. Quero drogas. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas. Nunca olho para rostos inocentes. Quero morder a vida e ser despedaçada por ela. Henry não me dá tudo isso. Eu despertei o seu amor. Maldito seja o seu amor. Ele sabe foder como ninguém, mas eu quero mais do que isso. Eu vou para o inferno, para o inferno, para o inferno. Selvagem, selvagem, selvagem.”
(Anais Nin, in Henry & June, 1932)

“A natureza humana é
Necessariamente camaleônica:
Ininterruptamente
Renovamos a roupagem.
Não (só) por uma questão higiênica,
Por uma questão evilutiva.
Nem tudo o que muda, evolui;
Entrementes, tudo o que evolui, muda.
Amanhã alternaremos
As vestes de hoje com outras
Não só por serem elas limpas,
Mas – mormente –
Por serem diferentes, novas,
Outras ou mais rotas.”
(Ricardo Wagner, in Com fissões de um protusuário de boteco, 2004)

“Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito tempo no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo seu gosto pelo decorativo desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem. No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha - com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo, enfim, compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera”.
(Clarice Lispector, in Laços de Família, 1960)

“Não podiam saber o que a filha deles havia aprontado. Jamais entenderiam o mundo impulsivo, ruidoso e sua futilidade, do ponto de vista da filha deles. Não sabiam que o namorado da filha tomava drogas, que o amante da filha, dentro em pouco, estaria em um avião partindo para sua casa na Alemanha, nem que o romance que ela estava escrevendo era caótico, revelador e repleto de pensamentos metafísicos e sexo em estado bruto.
Jamais saberiam do terror que havia no fundo do coração da filha deles, e o desejo que a morte não conseguiria superar. A vida dela sempre seria um revólver de desejo, capaz de disparar e matar a qualquer momento.
- Desculpem. Eu quero apenas comer algum congelado. Estou faminta - murmurei repetidamente, tentando sorrir. Então, eles desapareceram, e eu me joguei de cabeça na escuridão."
(Wei Hui, in Xangai Baby, 2001)

3 comentários:

anjobaldio disse...

Ôi Samantha, obrigado pelas dicas da fita K7.
E que coisas maravilhosas você tem lido, hein!
Bjs.

Rodrigo Carreiro disse...

De Jack Kerouak eu prefiro Vagabundos Iluminados. Já leu? Achei melhor que "On the road".

Zoe Leewing disse...

Ai, que delicioso desespero, mais tantos livros pra ler!