domingo, 13 de julho de 2008

Vegetal idade

Éramos, todos, sementes. E de paixão em paixão se germina, regados que somos pelo suor febril de poderosos amores. E se floresce, nutridos pela beleza instantânea do bem-me-quer [pois há beleza instantânea no bem-me-quer?]. E se cresce, se avoluma, à medida que nos somam camadas de tantas dores que morrem e renascem. Mas algumas de nós, ainda sementes, não abrolham, mesmo se regadas. Não florescem, ainda que longe de mal-me-quer.
Pois bem, todas, depois de tanto volume, padecemos com o peso dos galhos, nos dói o tamanho do tronco, chicoteiam a força das folhas. Arcadas, secamos. Então, paixões ressequidas não mais servem de adubo: nem sob suor, nem sob lágrimas.
E ninguém mais volta a ser semente. Nossa vegetal idade é finita.



Samantha Abreu
foto de agatha katzensprung

24 comentários:

Dolfo disse...

Como diz o ditado: figurinha repetida não completa álbum. Mas se bem que serve pra bater bafo. :) Bjos.

Clóvis Campêlo disse...

Samantha, és uma feiticeira das palavras.
O teu sorriso não nega!

FERNANDO disse...

Há, sim, Samanthinha, beleza instantânea no bem-me-quer.

Acontece que, entre ficar escolhendo ao acaso e a sorte das pétalas, nosso subconsciente já diz o qu queremos, do que gostamos. A questão da instantaneidade é que ela sempre esteve ali. Antes mesmo de sabermos se era bem-me-quer.

Beijocas.

Paula Bastos disse...

Puxa, você é realmente muito boa! Cada texto é como uma bala: sempre certeiro no que você quer dizer, em suas observações.
Adorei a analogia e concordo com vc.
Beijos

FERNANDO disse...

Ah, eu tinha achado, Samanthinha! Mas precisarei de uma consultoria pra sacar fora o box com linhas brancas que contornam o título. Hehehehe.

L. Rafael Nolli disse...

Olá, Samantha, que texto lindo. Achei a construção muito consistente - as palavras exatas organizadas em sua mais forte expressão. Difícil ver um texto tão poético assim, do início ao fim! Uma delícia de ler! Ainda mais com esse tom, uma coisa assim meio melancólica - ouso dizer, algo meio profético. Adorei!

solin disse...

eu quero que sejam infinitas.

anjobaldio disse...

Nossa idade vegetal bem que poderia ficar prá semente.

Cássio Amaral disse...

Muito bom texto Sam! A construção é perfeita. E seu questionamento é muito bom, o final é muito bom.

Beijos e muita luz.

Thiago Quintella disse...

A vegetalidade, gostei desse termo, parece nos deixar parados, mas sempre seguimos uma luz! Agora, se há beleza instantânea no bem-mal me quer...? Aí vc me pegou!

F. Reoli disse...

Você desperta verdades, Sam...
te beijo

Cin disse...

E ninguém mais volta a ser semente...isso é tão dolorido ás vezes.
Lindo texto!
Bjinhos!

Sunflower disse...

paixões como essa são botões na árvore da vida; flores de escuridão, elas são.

Beijaaa

Sérgio Luyz Rocha disse...

"...nasce morre trigo vive morre pão..." - pois é, Gil e você têm razão...besta quem não vê...(muito embora deixemos sementes por aí)...

Bom de refletir...

Bjs!!!

Solin disse...

a frase da intimista (perfil) é tua?

Polly disse...

Adorei!
Tô sentindo sua falta lá no blog.
Beijos

~Camila~ disse...

Adorei o jeito que voce escreve!
Muito bom muito bacana!.
Voce sabe usar MUITO BEM as palavras viu
parabéns

beijos

Cláudia I. Vetter disse...

Moça: tu me diz e me nega com a mastreia que só tuas mãos podem reger.

Lindo!

;***

Cláudia I. Vetter disse...

maestria*

Gabriel disse...

Muito bom vir aqui. Tava vendo a lista dos fucking songs! Dessas, eu fico com Doors e Glory box!

Esse post, gostei mais da foto!
um beijo

** e obrigado com a ajuda em relação aos marcadores!

Fabrício Brandão disse...

Gosto da sensibilidade que brota daqui!

Beijos

Clayton disse...

Samantha, tudo bem?

Intrigante esse texto, não? Estou digerindo-o ainda, "germinando-o" (rs).

beijos

Mwho disse...

Samantha,
Há de existir beleza enquanto não forem só cinzas... E as sementes podem ficar gravadas na memória...

Zoe Leewing disse...

Obrigada, foi otimo para mim!