segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Ensaio sobre a Cegueira

"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso."
(José Saramago, na apresentação do romance, vencedor do Nobel de Literatura em 1995).
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Não seria preciso mais do que algumas palavras para falar sobre o filme de mesmo nome do livro, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. É, de fato, incomodante.
Não, não quero ser piegas e fazer coro com a simples análise de que o filme denuncia como somos cegos aos instintos humanitários, às necessidades fraternais e blá blá blá... Embora isso seja verdade, é óbvio demais. Basta ler o livro ou ir ao cinema.
Eu recomendo que se leia, primordialmente. Mas, em comparação com a qualidade do cinema americano, esse filme é notável. Saramago relutou na primeira tentativa de Meirelles em comprar os direitos de filmagem do romance há alguns anos atrás, dizendo que 'o cinema estraga a imaginação'. Ele, de fato, não está totalmente equivocado, mas, ainda assim, vale o ingresso e a oportunização para quem jamais lerá, seja por desinteresse ou apenas por falta de conjuntura. (Veja a reação de Saramago, depois de ver o filme pela primeira vez: http://www.youtube.com/watch?v=Y1hzDzAvJOY)
Percebo que o filme é simples – coisa que admiro muitíssimo – e não se impõe por grandes efeitos digitais, grandes sacadas cinematográficas. Não, não espere isso. Ele é mais: é puramente narrativa, puramente roteiro. Alguns críticos dizem que a atuação dos atores não foi boa. Discordo. Eu as achei fantásticas, tendo em vista que o filme dependia, quase exclusivamente, de boas atuações para ser bom, e ainda conseguiu ser ótimo. Julianne Moore, como já era de se esperar, está grandiosa. Ela, pra quem já conhece a história (pra quem não conhece, leia aqui), é a única que enxerga no meio de todos os cegos, e passa a viver para guiá-los, ajudá-los. Impossível não sofrer com ela.
As imagens são, como disse Saramago, torturantes, mas não apelativas. A iluminação atordoantemente branca coloca a gente dentro do filme e, às vezes, dentro dos olhos. É um treinamento à tolerância se manter calado no cinema, pois a vontade é de berrar, dar ordem, tentar colocar a mão nas coisas, dar uns socos, desinflar alguns egos.
Vale notar, também, a denúncia de um governo despreparado, negligente e relapso. Governo que, diante do desconhecido, não hesita em tratar as pessoas como animais, isolando-as e tirando delas todos os direitos civis e sociais, sob péssimas condições de serviços estatais. Qualquer semelhança com outras doenças – físicas ou sociais – não é mera coincidência.

Por alguns momentos, no começo do filme, é impossível não ficar se perguntando ‘que doença é essa?’, ‘mas não vão achar a cura?’, ‘mas por que ela não se contamina?’, e etc. Mas, depois, somos levados tão sorrateiramente pelo roteiro bem escrito, que não se percebe mais a doença ocular, e sim a doença humana. Aí, sou obrigada a tocar no assunto ‘yes, nós somos monstros’. O filme esfrega, bem ali, na nossa cara, todo o egoísmo, intolerância, crueldade e animalidade humana. E não adianta pensar algo do tipo ‘eu jamais faria isso’. É bobagem. O tema é tão forte no quesito empatia, que não nos dá a coragem de fazer julgamentos. Não existe certo e errado. Existem apenas instintos.
E nisso somos todos iguais, cegos ou não.
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Ensaio sobre a Cegueira
Título Original: Blindness
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Don Mckellar, adaptado do romance de José Saramago
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Alice Braga, Danny Glover

14 comentários:

Cássio Amaral disse...

Sam,

Deu vontade de ler o livro e ver o filme. Sua análise me deu um insight pra isso o lado animal do ser humano, ou ser UMANO, nós ainda somos piores que os animais.
Beijo.

Cássio Amaral disse...

Sam,

Deu vontade de ler o livro e ver o filme. Sua análise me deu um insight pra isso o lado animal do ser humano, ou ser UMANO, nós ainda somos piores que os animais.
Beijo.

Jucosfer disse...

Li o livro há um bom tempo...
é fantástico e de natureza inquietante.
A reflexão é inevitável!

Rodrigo Carreiro disse...

O filme é tudo isso ai que você falou, e mais: belíssimo.
Meireles e equipe acertaram em cheio!

Cláudia I. Vetter disse...

me atrai, me levará.

;)

Aline Aimée disse...

O livro é brilhante! Tô doida pra assistir ao filme. Obrigada pelo comentário, querida. Vi suas poesias no google: lindas demais! Amei a das palavras e a das prestações (essa ficou deliciosa, dado o contraste do tema e do tom com a sua vozinha de menina). Beijãozão!

Sunflower disse...

Linda,

li o livro, vi o filme. Agora, pra mim, não só a história narrada seja por Meirelles ou Saramago - NEM VOU ENTRAR NA DISCUSSÃO ETERNA 'ah, mas o livro é melhor que o filme!' - que eu sempre mando às favas pois não tem melhor, são diferentes tipos de narrativas e diferentes leituras.

Agora, para euzinha,aqui, a historia do livro, do filme começou antes da narrativa de qualquer um dos dois.Há uns 3-4 anos atrás, fazia alemão, e na minha sala tinha um engenheiro elétrico que tinha um problema congênito e estava (está) perdendo a visão. Viajou diversas vezes pra Cuba pra operar e nada melhorou.

Durante os intervalos, ele me falava muito sobre o livro, e me emprestou sem que eu pedisse sob a condição que eu nunca mais lesse em ônibus, pois esse hábito fazia a retina se deslocar e eu só ia sentir anos mais tarde.

Imagina eu, lendo SARAMAGO, ensaio sobre a cegueira emprestado por alguém que está ficando cego e me fez prometer que ia tentar proteger a minha visão?

Pôxa, foi tão dolorido e ao mesmo tempo querido esse momento!

Beijas

FERNANDO RAMOS disse...

Samanthinha, já estou louco pra ver este filme e você ainda faz um, como posso dizer, artigo deste?

Vou hoje mesmo ao cinema. E depois comento minha impressão.

Thiago Quintella disse...

Seguramente, um dos melhores livros que li, que ainda hoje reverberam as cenas que montei em minha cabeça, via branco enquanto o lia. E o filme deve ser demais!

Julia Porto disse...

Oi Samantha, adorei seu blog! Muito inteligente e divertido.

beijos

Julia

jorgeana braga disse...

legal ainda seria pontuar como no filme e no livro a gente delineia bem a mulher como valor de troca...isso me lembrou levi strauss qdo diz que o valor de troca da mulher instaura a proibição do incesto...aquela cena da troca sexual por comida...e a limpeza da mulher meio "peixe morto" depois de morta...tem momentos de profunda delicadeza no filme e outros de...sei lá bem o quê...

taí um filme-livro que me tocou.

Alê Quites disse...

Gostei do filme, mas eu também recomendo que se leia, primordialmente.
Salve Saramago!

Peterson disse...

Impossível não dar uma de Camila Pitanga com o filme: um soco no estômago. Livro e filme têm sua beleza e sofrimento.

Ademir Furtado disse...

Olá Samantha. Estava aqui visitando teu blog e descobri essa resenha. Eu escrevi uma sobre o mesmo assunto. Se quiseeres ver dá uma passada no meu blog. Depois eu volto pra cá de novo
Abraços
Ademir