segunda-feira, 11 de maio de 2009

Depois da Guerra

photomaton, no Flickr
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Depois da guerra, eu tento voltar a mim mesma.
Um combatente em retirada, que entra pelo portão de uma casa que não é mais sua, embora ainda lhe pertença. As pessoas dali ainda têm o seu sangue, mas acostumaram-se à sua ausência. Os lençóis já não o reconhecem, os colarinhos e coisas não mais têm o seu cheiro.
Ele mesmo, soldado vencido, já não se encontra mais em si. Não se acha, mesmo quando vasculha, apressado, as gavetas do peito e da própria cabeça. Não reconhece suas novas cicatrizes, não lhe parece familiar a textura da pele nem os calos nas mãos. É alguém que, no cansaço da luta, se fragmentou em mortos e feridos, e mudou na velocidade do disparo de cada bala.
Sou eu esse guerreiro.
Sou eu que reapareço, trazendo comigo pedaços de corpos e almas que não me pertencem, mas agora fazem parte da unidade necessária para que eu me recomponha e, no devido tempo, retorne ao meu campo de batalha.


Samantha Abreu

16 comentários:

líria porto disse...

esta tua capacidade de escrever prosa enxuta me causa inveja - da boa! admiração!

gosto!

Sérgio Luyz Rocha disse...

Sabe, Samantha, a maioria das amizades recentes que fiz no mundo das palavras foi com mulheres, pudera, olha só o talento de vocês!

Este texto é primoroso sob todos os aspectos. Concordo plenamente com a Líria Porto - prosa exata, direta, bem na ponta do queixo...fui a nocaute...

Bjs, garota!

Clara Mazini disse...

Querida Samantha, quando você manda notícias elas são tão lindas que parecem invadir o meu quarto!

Admiro essa sua bonita capacidade de juntar fragmentos para construir uma unidade tão bonita!

Você, e todas as suas partes que te fazem, fazem bem! E eu gosto!

BAR DO BARDO disse...

De uma sensibilidade neurocirúrgica.

Adorei!

Renne Boz disse...

Texto intrigante. Muito, muito bom!
Um grande beijo.

Linda Graal disse...

maravilha, sá! coisa linda de ler...sempre melhor ainda, como pode?! rsrs

adorooooo

Rogério Saraiva disse...

na guerra
eu mato
e adoro
ver
sangue
misturado
com chantilly

Cabraforte disse...

Esse é só mais um dia desses de luta constante, vivemos neste mundo em que é gente comendo gente e levando delas pedaços, momentos, histórias, coisas e vidas, na maioria dos momentos são trocas marcadas, combinadas, sub-entendidas, outras é um jogo, um disputa de quem será o maior perdedor! Bom espero a proxima!


bj


Prazer reve-la

WESLEY COSTA MELO disse...

MUITO BOM....

Paulo Bono disse...

E quem é o inimigo?

Luisa disse...

adorei teu blog
beijo!

F. Reoli disse...

Sam... você é a mestra do "bom combate"!
E é sempre ótimo quando você deixa suas palavras sobreporem quaisquer trincheiras...
Te beijo

D'angelo disse...

Situação tensa hein gata!! Quando o "boom" acontece, sabemos realmente o pq? Se sim, haverá uma recomposição mais forte para outras guerras que virão.
Bju

Anônimo disse...

beckett diz: 'isso não faz mal a ninguém. não há ninguém.'
e leio e releio e encontro sentidos nisso há vinte anos.
a casa e o casulo descolam e não pertencemos mais ao que somos. essa dor nítida é, ao mesmo tempo, a dor de outro que não conhecemos mais.

bel.

Antonio disse...

Me lembrou Ovídio !
Beijos !

solin disse...

sam, andei pensando que, de vez em quando, poderia rolar umas parecerias lá no MSD, tipos nas histórias e tal.

[?]

até
;)