quinta-feira, 28 de maio de 2009

O cara lá de casa

Eu ainda era menina quando escutava rock’n roll num volume estridente vindo da sala. Ele apagava todas as luzes e nos proibia de interrompê-lo. Também era garotinha quando andávamos de bicicleta no domingo pela manhã, como se eu fosse a única companhia que realmente importasse pra ele. Não tinha nem dez anos quando ele me colocava sentada naquelas motos enormes que sempre gostou, e tirava fotos com poses de motoqueira e óculos modelo caçador.
Na pré-adolescência, era o terror dos meus amigos, era o mais bravo, o mais briguento. Ninguém gostava de brincar na minha casa, mas tinha que ser lá, pois ele não me deixava ir para as outras. Não aceitava notas ruins no meu boletim, não me deixava faltar às aulas. Alugava filmes todos os dias para que assistíssemos à noite, depois da novela, ou na correria da hora do almoço. Eu nunca podia escolher os desenhos animados, pois ele sempre me fazia ver ‘os clássicos’. Foi o terror dos meus namoradinhos, dos amigos-meninos e das festinhas de garagens, mas foi ele que me ensinou a continuar em pé quando eu achei que o mundo tinha acabado junto com o primeiro namoro.
Ficou ainda mais próximo quando foi morar em outra casa, sofrendo como poucos e ganhando todo o meu fascínio. A partir daí, não era mais apenas meu pai. Desde então, é meu amigo. Aquele com quem falo de música, com quem tomo cerveja, troco descobertas, com quem discuto horas e horas sobre qualquer assunto, justamente por sermos tão idênticos e teimosos incansáveis.
Foi dele que ganhei meu primeiro VHS do Pink Floyd no aniversário de 13 anos. Dele ganhei, também, um Fiat 147, que só dava problema comigo e nos fez, eu e minhas amigas, passarmos micos memoráveis. Foi na locadora de vídeo dele que trabalhei na adolescência e me tornei essa apaixonada por cinema, embora tenhamos gostos tão distintos (com exceção dos clássicos, é claro).
Sempre achou legais as coisas das quais eu gosto, me incentivou a fazer coisas que as outras pessoas não fazem e me ensinou que amigos verdadeiros e personalidade forte não têm preço.
Meu pai faz 56 anos, hoje. E eu peço, todos os dias, para Deus ou o que quer que seja, que ele viva mais dez vezes isso.

8 comentários:

Alex Oliveira. disse...

muitos anos de vida para o seu pai.

Nanda Matos disse...

Parabéns para seu super heroi!
gostei daqui!


=)

Linda Graal disse...

êeeeeeee!!! viva o pai da sá, uma figura, sem dúvida! ;)

abraço imenso...

Paulo Bono disse...

Vida longa ao pai da Samantha!
abração

Sérgio Luyz Rocha disse...

...sobrou um pedacinho de bolo aí?
..é Samantha, seu velho é de uma boa safra...vida longa!!!

Bjs., garota!

Rê Ruffato disse...

que linda homenagem, sá. Parabéns pra ele e pra vc tb!
beijos

BAR DO BARDO disse...

quanto velo e desvelo...

parabéns aos dois!!!

Marcos Satoru Kawanami disse...

cara, aí, "quando ele foi morar em outra casa" travou meu peito. meus olhos marejaram.

meu avô tinha um Fiat 147, esse modelo é espeto mesmo: todos eles viviam quebrando, o teu não foi o único.

legal ter um pai companheiro; quem não teve, sente falta.


;***
marcos