quarta-feira, 24 de junho de 2009

A Fome do Mundo

foto de tryt
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Quando se percebeu sozinha, resolveu nada perder.
Teve a brilhante idéia de colocar para dentro de si um universo repleto de essencialidades. Pela garganta, passavam suas coisas preferidas: dedos do namorado, uns fios de cabelo, os botões do controle remoto, o rabo do cachorro, um gole do perfume, algumas letras do teclado: um mundo só seu.
Um reino na barriga. Era o que ela armazenava, princesa.

Na origem do desejo, era sua ganância por particularidade que mais a tentava. Era apenas a necessidade de uma vida cheia de vontades realizáveis. Não se dava conta, entretanto, que a certo ponto de comilança desvairada, os vestidos não mais lhe cabiam, as calças esticavam apertadas. Mas a febre devoradora a atiçava: o que mais você quer ter, Judith? Coma! Coma!
Um lábio arrancado no beijo, uma criança perdida, alguns insetos, um jardim, as lasquinhas do automóvel, Judith comia. Foi empregando para cada coisa dentro se si, no estômago, uma função insubstituível. Os amigos, os inimigos, o pai, a mãe, o sangue.

Judith não mais podia se contentar com pouco, a fome a consumia, doía a barriga, ardia a garganta. Precisava comer tudo o que via pela frente para que tal mundo, só seu, fosse, então, completo e cheio de seus eternos sonhos. Engoliu tudo o que sempre quis ter, mas o mundo externo e coletivo não lhe dava a licença para.
Tinha, passando pela garganta e em processo de digestão, um universo próprio.
Gorda, Judith devorou o mundo.


Samantha Abreu

15 comentários:

Rodrigo disse...

voracidade, gula e fome!
Belo texto

Paulo Castro disse...

Um Jorge Luis Borges BEEEEEEMMMMMM MELHORADO. Pois assustador. E poético. Se ele disse: "Quem foi o Deus que Deus criou?", vc responde isso, vc cria Judith como um Anti-Deus. E mais que isso, não há como não imaginar que agora só lhe reste comer a si mesma. Oroboro voraz sem limites. O nome de Judith é algo como Lilith. Forte, Sah. E mais forte por todos termos em nós uma semente de Judith/Lilith urrando pra brotar em destruição e auto-destruição de sem limites eróticos-vorazes, a selvageria oral em dentes de puro instinto totalmente e finalmente liberto.
Sofram com o vazio e o incômodo, cagões que me venham abaixo.
BeIjos.
( e lenço de linho nos lábios)
º

Linda Graal disse...

sempre delicioso o que escreve...menina, bom-bom, demais!!

besitos

BAR DO BARDO disse...

Ádipos é o nome de sua estrela, seu continente, seu país, seu estado, sua cidade, sua comarca, seu logradouro, sua rua, sua quadra, sua casa, seus talhes e detalhes...

Rafael Avansini disse...

Samantha, vc é surreal! ;)

Rafael Avansini disse...

Surrealista, na verdade...rs

anjobaldio disse...

Tua literatura é fascinante, Bjs.

F. Reoli disse...

E esse tipo de gula é daquelas que vão sem culpa nenhuma pra cima da balança!
Beijos

célia musilli disse...

Gostei muito do texto, me lembrou a peça 'A Mulher que Comeu o Mundo', rss. um grande beijo, saudades!!!

Otávio Augusto disse...

Isso poderia se tornar um jargão do estilo "arrasa, bee": "Devora, Judith. Devora!"

O texto é ótimo, por isso mesmo lapidar.

ºª disse...

universo próprio, não pode, né?
não pode vida, morte não pode.

achei boniiiito, boniiitoo...

assim, mas acho que nessa função do estômago a morte tem mais doçura que a doçura desse texto bonito.

este texto parece um armário que li em márcia tiburi. com seus animais pré-históricos miniaturizados.

Tâmara disse...

Será Judith o meu nome?

Lindo, Bela!

amei!

On The Rocks disse...

samantha, você é maravilhosa.

bj

Marcos Satoru Kawanami disse...

pô, aí. lembra um desenho animado de longa-metragem em que um dos personagens devorava tudo por onde passava; depois, tomava banho, se purificava do que engolira, e ficava um fantasminha magriça.

é prosa poética, é?


=D
marcos

eduardopatricio disse...

hum... gostei daqui.