sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

No Espaço do Não Limite

foto de joe gantz
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Ele me chamou pro jogo, e eu sem a rainha. Ligou o som, virou-se pra mim: ‘Give me one reason to stay here and I'll turn right back around’. Mal sabia que eu já estava outorgada e não via outro motivo, além disso já ser um motivo, para convencê-lo a ficar. Eu nada tinha a oferecer a não ser umas curvas arredondadas e escorregadias até pra pneus de chuva e algumas frases feitas. Apenas uma garota clichê, com sorrisos prontos e músicas pop. Mas tudo que eu precisava naquele momento era que ele me desse uma experiência através dos riscos nas paredes e explosões não terroristas. Sem nomes, meu amor, detesto nomes, disse o Marlon Brando. Era dele o tabuleiro, mas não me negava a brincadeira e me cantava com ‘because I don’t want to leave you lonely’.
Exato, esse é o ponto.
Quando levantei, ele já me tinha pelas mãos na cintura. O embalo era tão sísmico que me abalou aos tremores não mensuráveis. De olhos fechados, eu não respondia mais por movimentos, atos ou copos no chão. Sentia o balanço e o preenchimento de todo meu leave me lonely. A cabeça pendendo sobre nós no centro-limite em que um corpo ainda não era outro, embora nós já fossemos apenas um no universo, não no coletivo e infinito, que também é mundo, mas naquele nosso, bem mais mundo que todos aos quais poderíamos pertencer.
Perdemos o tempo do tempo. Nos enrolamos no chão até que nosso mapa mundi fosse do meu ao dele em apenas um oceano de suor e vulcões-poros em plena erupção.
Estava ali, no tapete, he’s reason to stay. Você consegue ver - ele disse - que onde me começo te termino e que não há mais espaço para ser você mesma em você? Não me saiu um sussurro sequer. Dizem que esse é o silêncio-sinal.
Foi ali, bem ali, que percebi.
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Samantha Abreu

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Psicodrama

Era notório. Chegava pondo furos no chão.
Scarpins elegantes lhe davam pose de mulher moderna.
Vestido preto sem mangas, deixando lhe escapar a tatuagem no ombro. A franja caindo aos olhos, o decote mal alinhado.
Segredos.
O corredor sem fim, silencioso. Um vazio de dar calafrios.
Ela entrou na sala e o viu deitado. Estava vestido de madeira, o rosto pálido, ar sombrio.
Fechou os olhos e lembrou de quando o encontrou sob o corpo de outra mulher. A cama era deles.
Sentiu-se intrusa. O sapato apertando.
As pessoas a encaravam pasmadas. Ela se aproximou do corpo, tocou-lhe a mão tão fria.
Where is our love, my babe?

Teve que sair apressada, arrancando os sapatos e pisando o chão gelado.
As sirenes estavam cada vez mais perto.
A policia sempre atrapalhava seus planos passionais.


Samantha Abreu

Fiapos de Chuva

Eu, meu sotaque paranaense e o texto do Paulo Castro

sábado, 10 de janeiro de 2009

Miss Mulherzinha

foto de Piotr Rosinski

Percebo que, afinal,
sou apenas uma mulherzinha
cheia de pequenos
detalhes.

Uma Miss Dalloway
simulando uma festa de vida,
mas amando o desejo de morte.
Mulherzinha do tipo que não se nota.

E você procura tanto
pelas ruas
a desgraça de um bom drama,
que não me suporto mais ser.

Arreganho, pois, a alma, depois
das pernas,
e te mostro como um bom drama
se traveste de hábitos.


Samantha Abreu

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Feliz Dia Novo!

foto de Margarida Delgado
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E quem foi que disse que começar um ano é recomeçar a vida?
Não se renasce numa festa de reveillon. Resoluções só servem pra comércio de agendas.
Eu ainda uso o mesmo perfume;
ainda me irrito com gente medíocre.
Sou a mesma ciumenta que enlouquece amigos;
ainda compro livros mais do que os leio, e continuo me martirizando por não os ler;
continuo apaixonada pelo rock, pelo jazz, pelo blues e por todos que fazem história neles.
Ainda me alimento de efêmeras paixões;
e continuo dando graças por não morrer de amor.
Minha gargalhada continua a mesma. E ininterruptamente escandalosa.
Ainda brigo diariamente com alguém que tenta me fazer de boba;
e permaneço deixando na rua o que não devo levar para casa: desaforo.
Sou a mesma viciada em filmes. Ainda mais nos que já vi e gostei, revendo-os sempre.
Meu quarto continua uma bagunça, minha bolsa também;
continuo preferindo os loucos, os amantes, os famintos;
sei que vou gastar toda minha grana em coisinhas inúteis que me fazem feliz; não trocarei de carro, não comprarei um apartamento, nem farei poupança. Não serei escrava do dinheiro.
Ainda vou discutir muito com meu pai, tendo certeza que somos idênticos; e com minha mãe, tendo convicção que somos opostos.
Continuo com medo de injeção, sentindo dor na cera quente e fugindo das chatices;
sou a mesma que deseja mudar semanalmente o cabelo, pintar as unhas de vermelho e detesta batom.
Eu sempre vou preferir o quente e o frio ao morno; e as cores fortes aos tons pastéis.

A mesma, exatamente a mesma. Carregando as mesmas cicatrizes e cutucando as mesmas feridas.
Não quero que um ano seja diferente do outro: quero que os dias sejam únicos.

E quem foi que disse que começar um ano é (re)começar uma vida?


Samantha Abreu