quinta-feira, 30 de abril de 2009

De Febres e Guerras

foto de Toddy R..
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Uma carne exposta para que ele acaricie. É assim que sinto quando, meticulosamente, ele me despe de todas as peles e me toma por todas as raízes e nervos.
Vamos construir um palácio, ele diz, vamos mudar pra Veneza, vamos rir pelas ruas, dormir embriagados. Vou te arrancar todas as dermes, todas as noites, vou te despir das máscaras, vou te deixar como és, ele diz. Faremos baderna em igrejas, gritaremos palavrões da janela, levaremos os cachorros da rua pro nosso apartamento. Vou lhe fazer um filho e uma tela expressionista.
Eu ainda não entendi se é loucura ou arrebatamento. Meus pés no chinelo suam, não consigo correr sem cair e ele me alcança, me retoma aos beijos. Ele me mantém no laço ardido do amor e ódio, do bem e do mal. Esse amor é filho da guerra, eu digo, somos inimigos. Ele ri, toma calmamente outro gole, me pega pelo braço e me arrasta até o quarto mais próximo. Ali entendo como sou sempre o país mais fraco. Terrorista, eu grito. Ele me lambe todos os vãos, me morde as sobras, me engole. Nossa febre é vida, meu amor, ele sussurra me arrancando a orelha.
Fadigamos alguns minutos, abraçados. Levantamos e saímos rindo pela rua, chutando pedrinhas e falando obscenidades para que as velhotas de portão nos escutem.


Samantha Abreu

sexta-feira, 24 de abril de 2009

terça-feira, 14 de abril de 2009

técnicas de disfarce

Tudo mal explicado, médio-resolvido, ele pára na porta e fica me olhando.
Disfarço, dou uma piscadinha acompanhada de um sorriso, e continuamos assim.
Segundos que parecem horas.
Mais sorrisos de canto.
- O que foi? – ele me pergunta.
Caralho, como você é lindo, esse seu olho é lindo, seu abraço é um dos melhores do mundo, seu perfume é o meu preferido e morro de vontade de ficar enroscando meus dedos no seu cabelo, pra sempre.
- Nada não.

Blip.fm

pra quem ainda não teve o prazer, conto que é uma delícia brincar de Blipar.
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Sabe o Twiter? Então, é igual, só que você pode fingir que é Dj e fazer altos sets de músicas.
vai lá pra ver!

terça-feira, 7 de abril de 2009

FotoConto # 10

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da janela, o que brilha lá fora não é mundo...
é reflexo.

do que é meu

Sabe que, no final das contas, penso que o segredo da felicidade seja uma memória seletiva. Experimente ficar longe da família que te inferniza, dos amigos que te enchem, do namoro que já anda esgotado, das coisas que te pertencem...
A saudade dá à memória uma incrível capacidade de esconder em um lugar pra lá de inalcançável toda lembrança ruim que tenhamos do que temos.
Esqueço como minha mãe me irrita quando fala sem parar, pra sentir uma intensa falta do suco que ele me faz pela manhã. Esqueço de como meu namoro tem me sufocado, pra lembrar como é bom ter alguém que se preocupe em me fazer sentir amada. Da minha cachorra que se esparrama em minha cama, pra companhia que ela me faz no quarto. Da raiva que sinto das minhas amigas quando elas discordam, pra maravilha de uma cerveja gelada sempre que preciso.
Ser feliz, então, passa a ser não mais um estado de espírito, mas uma condição da memória. E evidencia, mais uma vez, que a cotidianidade, quase sempre, nos faz perder a atenção à sensibilidade do que nos é reconhecível.
É nos detalhes que a felicidade se traveste de hábitos. Eu já disse isso.