quarta-feira, 24 de junho de 2009

A Fome do Mundo

foto de tryt
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Quando se percebeu sozinha, resolveu nada perder.
Teve a brilhante idéia de colocar para dentro de si um universo repleto de essencialidades. Pela garganta, passavam suas coisas preferidas: dedos do namorado, uns fios de cabelo, os botões do controle remoto, o rabo do cachorro, um gole do perfume, algumas letras do teclado: um mundo só seu.
Um reino na barriga. Era o que ela armazenava, princesa.

Na origem do desejo, era sua ganância por particularidade que mais a tentava. Era apenas a necessidade de uma vida cheia de vontades realizáveis. Não se dava conta, entretanto, que a certo ponto de comilança desvairada, os vestidos não mais lhe cabiam, as calças esticavam apertadas. Mas a febre devoradora a atiçava: o que mais você quer ter, Judith? Coma! Coma!
Um lábio arrancado no beijo, uma criança perdida, alguns insetos, um jardim, as lasquinhas do automóvel, Judith comia. Foi empregando para cada coisa dentro se si, no estômago, uma função insubstituível. Os amigos, os inimigos, o pai, a mãe, o sangue.

Judith não mais podia se contentar com pouco, a fome a consumia, doía a barriga, ardia a garganta. Precisava comer tudo o que via pela frente para que tal mundo, só seu, fosse, então, completo e cheio de seus eternos sonhos. Engoliu tudo o que sempre quis ter, mas o mundo externo e coletivo não lhe dava a licença para.
Tinha, passando pela garganta e em processo de digestão, um universo próprio.
Gorda, Judith devorou o mundo.


Samantha Abreu

quarta-feira, 17 de junho de 2009

moralismo burro ou apenas censura ressuscitada

Fico assustada de imaginar que corremos o risco de regredir em muitas conquistas artísticas e libertárias. Sabe do que eu tô falando?
Voltamos a ter acessos descabidos de moralismo barato em algumas cidades do Brasil. Livros estão sendo retirados das bibliotecas escolares com o argumento de que 'ferem e influenciam negativamente' os jovens por tratarem de assuntos como violência, sexo, morte. O pior disso é que as ações têm sido tomadas de forma autoritária, contra o que se entende por desenvolvimento cultural e educacional e com total falta de argumentos convincentes.
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Para se ter idéia do absurdo, livros de história foram recolhidos por apresentarem gravuras com rituais indígenas de execução dos adversários. Ah, minha gente... e isso não é justamente a história? Não se costuma estudar isso na escola? Ou ainda precisamos ter os livros didáticos pasteurizados, com modelos sociais determinados, que formam cidadãos convencionados e sem atitude?
Dois livros de literatura foram tirados das prateleiras: uma coletânea de contos chamada Amor à Brasileira; e Um Contrato com Deus, de Will Eisner. Os dois acusados de tratarem assuntos inadequados como estupro, violência e sexo. No caso do Eisner, ironicamente, trata-se de relatos de memórias infantis dele mesmo.
Será que em algum momento se cogitou a idéia de que o estudo crítico de literatura desse tipo é que formará jovens atuantes, conscientes e embasados? O senhor vereador Jair Brugnago (do PSDB, obviamente) e seus colegas de militância pensam em acabar com todas as más influências aos jovens de que forma milagrosa? Proibindo músicas, tirando programas do ar, queimando livros? E como será que pretendem acabar com a péssima influência política que os jovens têm hoje, por conta dos belos exemplos de canalhice em nossas câmaras e senado? Queimando esses políticos na mesma fogueira? Ou agindo apenas dessa forma colonialista e hipócrita?
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Sim, estou indignada com tamanho disparate. Um dos maiores motivos de vergonha do nosso passado está sendo ressucitado: a censura.
Daqui há pouco tempo, teremos gente sendo condenada pelo simples fato de pensar e expor, de forma artística, o que pensa sobre a política, sobre a sociedade, sobre a hipocrisia e, principalmente, sobre esse moralismo burro.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Desiguais

leszek kowalski
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Todas as manhãs,
divido-me em duas,
gêmeas
tão ímpares quanto as pessoas
apressadas
do expresso 2222 ao forte sem açúcar,
na estação central.
Ilusões, ambições, amores
desiguais.

Brigam, as duas,
incansáveis, entre si.
Uma de cada lado,
a me sussurrar no ouvido
desejos.

Só a noite me salva.
Posso, dona de mim,
dominá-las.
Dormem, as duas crianças, exaustas.
Então posso
ser.
Posso, a mim, servir.


Samantha Abreu