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Quando se percebeu sozinha, resolveu nada perder.
Teve a brilhante idéia de colocar para dentro de si um universo repleto de essencialidades. Pela garganta, passavam suas coisas preferidas: dedos do namorado, uns fios de cabelo, os botões do controle remoto, o rabo do cachorro, um gole do perfume, algumas letras do teclado: um mundo só seu.
Um reino na barriga. Era o que ela armazenava, princesa.
Na origem do desejo, era sua ganância por particularidade que mais a tentava. Era apenas a necessidade de uma vida cheia de vontades realizáveis. Não se dava conta, entretanto, que a certo ponto de comilança desvairada, os vestidos não mais lhe cabiam, as calças esticavam apertadas. Mas a febre devoradora a atiçava: o que mais você quer ter, Judith? Coma! Coma!
Um lábio arrancado no beijo, uma criança perdida, alguns insetos, um jardim, as lasquinhas do automóvel, Judith comia. Foi empregando para cada coisa dentro se si, no estômago, uma função insubstituível. Os amigos, os inimigos, o pai, a mãe, o sangue.
Judith não mais podia se contentar com pouco, a fome a consumia, doía a barriga, ardia a garganta. Precisava comer tudo o que via pela frente para que tal mundo, só seu, fosse, então, completo e cheio de seus eternos sonhos. Engoliu tudo o que sempre quis ter, mas o mundo externo e coletivo não lhe dava a licença para.
Tinha, passando pela garganta e em processo de digestão, um universo próprio.
Gorda, Judith devorou o mundo.
Samantha Abreu
Quando se percebeu sozinha, resolveu nada perder.
Teve a brilhante idéia de colocar para dentro de si um universo repleto de essencialidades. Pela garganta, passavam suas coisas preferidas: dedos do namorado, uns fios de cabelo, os botões do controle remoto, o rabo do cachorro, um gole do perfume, algumas letras do teclado: um mundo só seu.
Um reino na barriga. Era o que ela armazenava, princesa.
Na origem do desejo, era sua ganância por particularidade que mais a tentava. Era apenas a necessidade de uma vida cheia de vontades realizáveis. Não se dava conta, entretanto, que a certo ponto de comilança desvairada, os vestidos não mais lhe cabiam, as calças esticavam apertadas. Mas a febre devoradora a atiçava: o que mais você quer ter, Judith? Coma! Coma!
Um lábio arrancado no beijo, uma criança perdida, alguns insetos, um jardim, as lasquinhas do automóvel, Judith comia. Foi empregando para cada coisa dentro se si, no estômago, uma função insubstituível. Os amigos, os inimigos, o pai, a mãe, o sangue.
Judith não mais podia se contentar com pouco, a fome a consumia, doía a barriga, ardia a garganta. Precisava comer tudo o que via pela frente para que tal mundo, só seu, fosse, então, completo e cheio de seus eternos sonhos. Engoliu tudo o que sempre quis ter, mas o mundo externo e coletivo não lhe dava a licença para.
Tinha, passando pela garganta e em processo de digestão, um universo próprio.
Gorda, Judith devorou o mundo.
Samantha Abreu

