sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Mãos de Medusa


texto e locução de Samantha Abreu

Pra me tirar do giro...

Dentre todos os meus defeitos, tem uma coisa em mim que me faz valer à pena: meu bom e sarcástico humor. Sim, sou uma pessoa que ri das coisas e de si mesma. Pelo menos isso.
Só que, em contrapartida, tenho um veneno letal que me consome em certas circunstâncias, e que me levam a fazer coisas inacreditáveis até pra mim mesma. É o que chamam por aí de perder a cabeça, ter sangue no olho, sair do corpo, etc.
Hoje, por exemplo, para que eu não cometa um crime inafiançável, estou aqui na frente dessa folha do Word. Então, vai aí minha lista de sete coisas que me tiram do corpo, me deixam com sangue nos olhos ou me decepam a cabeça:

1 – pessoas que tentam me ensinar coisas que eu já sei sem sequer me perguntarem antes. A pessoa vai falando e eu balançando a cabeça com um “sim, sei, já sei, ahãm”, mas ela não se toca e continua explicando tudo nos mínimos detalhes, didaticamente elaborado pra me fazer aprender as coisas do seu jeito. AhhhHH!
2 – pessoas que nunca erram. Mas mesmo que você prove que ela falhou, ela explica com aquele tom político (como se eu fosse burra o suficiente pra ser persuadida) o motivo de ter agido de tal forma. O tipo de pessoa que se um dia tocar fogo no mundo por descuido, vai dizer que recebeu uma mensagem divina durante um sonho.
3 – aquele grau de efusão que interfere no meu espaço. Gente que empurra de tanta felicidade, cospe de tanto que fala, dói da tanto que grita, irrita de tanto que existe. Vá de retro.
4 – gente que fala imitando voz de neném. Meu Deus, por que é que alguém ainda acha que isso soa carinhoso ou agradável? Tenho pavor de gente melosa, grudenta, carinhosa demais. Gente que precisa demonstrar a todo o momento o quanto ama, o quanto se dedica, o quanto é sensível e dócil. Comigo o resultado é sempre inverso.
5 – adolescente ou pós-adolescente bêbado em bar. Aí abro um parêntese pra dizer que isso pode ser uma chatice minha, devido minha mania de velha. Mas taí uma coisa que me dá vontade de partir pro espancamento. Lugar de adolescente, ou pós-adolescente, não é em bar. E se for, não é bêbado, e se for, não é dando vexame ou atrapalhando os mais velhos.
6 – filho arteiro de mãe passiva. A criança está lá, derrubando o mundo, e a infeliz do lado: “não faz assim, fulaninho”, “não mexe aí senão a tia briga”, e mais um monte de entonações da psicologia infantil que não serve pra nada além de formar crianças e adolescentes cada vez mais incontroláveis. Meu pai precisou me dar umas palmadas pouquíssimas vezes, mas eu tinha medo só do jeito como ele falava. Já hoje, essa gente mole que não garante respeito nem de cachorro vira lata... ah, não tenho paciência.
7 – gente que mexe em minhas coisas e as tira do lugar. Aí tenho que ressaltar que, embora muitas pessoas insistam nisso quase propositalmente pra me irritar, a campeã nessa arte é minha mãe. Ela tem o dom de sumir com as coisas e insistir em nunca tê-las visto, não saber do que se trata ou fingir que não é com ela. Sim, aí eu dou uns gritos. Sim, ela não vai mudar nunca. Nem eu.
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domingo, 18 de outubro de 2009

Sobre Viver Apesar

Todo sentimento anula
a desgraça libertária de serzisses.
Todo amor desarruma
a independência viril do orgulho.

Não há sensibilidade nas ruas,
não há emoção nesses bares.

Apenas um livrar-se das cotidianas tarefas,
um sair ileso dos convenientes desprendimentos,
o manter-se vivo nesse campo de desconcentração.

Nenhum coração é digno de confiança,
nenhuma razão merece respeito,
e a arte se torna o alívio,
[preparar, apontar: fuzilamento!]
da deslealdade da guerra.


Samantha Abreu
foto de Ellen von Unwerth

sábado, 10 de outubro de 2009

Resignação

foto de akif celebi
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Toda minha força retraída entre a negação e a possibilidade de me servir. Uma lista cheia de idéias que não passam de tópicos, atitudes que não saem da imaginação e vontades que são apenas reformulações precárias dos desejos mais intensos.
Já existiu em mim uma garota partidária de revoluções, adepta das invasões e cheia de fascínio por invenções. Existiu em algum lugar que hoje é apático, onde a apreensão tomou conta, a convenção fez política e a usança se instalou. Essa menina, vez ou outra, esperneia. Seus chutes são de tamanha revolta que estremeço num cambalear indeciso. Dói. Dói. Nessas horas, agacho, miúda, e espero que ela transborde até que se sinta cheia de si e re-adormeça.
De todas as minhas más companhias, nenhuma me parece tão pungente e indesejada quanto esse medo de ser.


Samantha Abreu

Tim Burton Hands

Acho o Tim Burton um dos mais geniais, criativos e incomuns cineastas de todos os tempos. Não, eu não disse o melhor. Disse um dos mais geniais, criativos e incomuns.
Qualquer bom apreciador de cinema é incapaz de resistir a algum de seus filmes. Eu me rendi à vários, entre eles, é claro, Big Fish e Edward Scissorhands. Este último revi hoje com o Pedro, meu sobrinho de cinco anos, e o que mais me deixou feliz foi o fascínio dele com o que via.
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Taí minha cena preferida:
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