sábado, 9 de janeiro de 2010

Amputação dos Dias

foto de metin demiralay
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Eu tento o assomo quando te olho daqui. Tento sair. Tenho comigo a ira, o desejo e o ardor da carne, mas os carrego suprimidos sob a pele do cordeiro. É tão dolorida essa amputação. A criança sente a ferida do tombo, mas não desiste de cair. Pois eu já deixei de me travestir desse atrevimento desmedido. As quedas, hoje, me doem demais.
Alcancei a segurança dos pés descalços, das roupas discretas e da aparência sensata. Alcancei o sossego do conformismo e do isolamento. Não sei mais onde começa o abismo dos meus pensamentos.
Sinto a anulação de mim.
E a impossibilidade é uma perene navalha em meu pulso.



Samantha Abreu

6 comentários:

Grazzi disse...

Começa onde termina, e as palavras fazem laços de enforcados.
presente é sempre bom compartilhado.

Beijos.

Anônimo disse...

essa navalha dói física. menino de rua com macarrão no colo, cheio de fome, mas o estômago já encolheu. e se come hoje, amanhã a fome dói de novo. melhor não.melhor nada.

bel

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Passando para ler. Gostei.



Beijos,


CC

BAR DO BARDO disse...

Forte e precisa, como lâmina bastante afiada e jorros de sangue...

anjobaldio disse...

Mais um texto maravilhoso! Grande abraço.

Marcos Satoru Kawanami disse...

vc é escritora?