domingo, 20 de junho de 2010

Jogos Íntimos


Ela faz o jogo de se abrir e fechar em um movimento tão cadenciado quanto cansativo. Guerreia em nome dos dias de céu caramelo.

Hoje ela deseja um filme francês, quer vestir apenas a velha camisola. Uma bacia de pipoca sobre a barriga e um choro amargo em nome de uma triste história européia que não é a sua. O suspiro do cachorro ao lado do sofá, garantindo uma fidelidade quase onírica. Depois de muitas lágrimas, ela agradece pelo sorriso que ainda vê no espelho e no súbito desejo de ânimos espiralados cantarola sua canção preferida, enquanto enche a própria alma de desejos e lenimentos infantis. Dança deslizando pela sala e cai no sofá, explodindo uma gargalhada cândida e sincera. Sai para comprar o pão das dezesseis horas na mercearia da esquina e o come ainda quente. Fala confortavelmente sozinha e com a boca cheia.

Mas os dias são outros. A celeridade deles a arrasta, o sapato aperta e ela já não pode chorar. Não é tempo de filmes europeus e Amelie Poulain é uma heroína tola. A graça foi massacrada pelo compromisso: não mais se gargalha.
Nessa realidade que ela tenta colorir, a vida insiste em proibir.
Em dias assim, a poesia é apenas uma carta suicida.


Samantha Abreu
foto de delilah woolf

11 comentários:

Maurício Arruda Mendonça disse...

"...no súbito desejo de ânimos espiralados cantarola sua canção preferida, enquanto enche a própria alma de desejos e lenimentos infantis." Você está escrevendo muito, Samantha! Parabéns!

Otto_M disse...

Não só uma mulher, mas um ser humano diante de uma solidão voraz tão comum nesses dias de pós-modernidade. No início somos levados por uma cadência quase em adágio, mas vem o choque com o inevitável no parágrafo seguinte. Muito bom.

Julienni Campos disse...

Eu fico um tempão sem passar por aqui e quando venho quanta coisa boa encontro. A sinceridade das suas palavras faz quem lê se ver em seus textos.
Lindo, lindo.

Um beijo
Ju

Marcos Satoru Kawanami disse...

o filme ser francês não garante que é bom.

quer rir, recomendo estes fimes brasileiros:

"O Homem Que Desafiou O Diabo", com Marcos Palmeira; além de meu homônimo, tem um cazzo più piccolo, che ho visto in altra opera: "Anahi de las Misiones".

"Casa Da Mãe Joana", com Pedro Cardoso, José Wilker, Hugo Carvana, Carolina de Freitas e Malu Mader.

"Tapete Vermelho", este é drama, mas homenageia meu avô, e tem no elenco Mateus Naschschssghttergaylle, Gorete Milagres, Ailton Graça e meu conterrâneo Cocô di Eggs.

mas tu precisa mesmo é de homem, ou teu estilo literário é o Periguetismo Mal do Século?


=D
Marcos

Marcos Satoru Kawanami disse...

"Os Rocha", comédia com Ary Fontoura, Lúcio Mauro Filho, José Wilker, e uma pá de gente legal...

"O Maior Amor Do Mundo", pra chorar largada e te suicidar de vez, com José Wiker.

Marcos Satoru Kawanami disse...

cara, pensando mais detidamente, assume, e vira lésbica. mulher é que é bom, eu recomendo.

Rose Carrara disse...

Samantha

Sua poesia é única.Carregada de catarsis ,corrobora a tese de que a ela é sempre libertadora, mesmo que essa liberdade signifique morte.
Parabéns!!

beijo

POBRE MEU BLOG disse...

Puta texto Samantha!

Giz disse...

Eu sempre suspiro lendo o que tu escreves! Ahh Samantha!

Américo do Sul disse...

Em dias assim... As palavras despertam cAtordoadas. Descobrem-se íntimas por detrás das cortinas. Ainda bem q não se calam...

Prazer em lhe conhecer, no pouco q li de vc.

Celia disse...

Samantha, chove aqui e este seu texto está a minha cara... beijos, saudades.