terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Devaneio Vicioso


Mais alguns segundos
para que eu possa terminar este cigarro
e aspirar
no trago
a sensação violenta
de ser invadida por ti.

Eu me completo do teu
tóxico jeito
de amar.
Um curto grau
de devaneio vicioso.

A ponta eu guardo
para posteriores abstinências.


Samantha Abreu

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Tomadas, I love You

Espero que você já tenha assistido ao filme New York, I love you (EUA, 2009). Caso ainda não, faça logo. O filme é do mesmo diretor geral e criado no mesmo gênero de ‘Paris, je t’aime’. É composto por onze curtas (todos com direção e roteiro independentes), com um elenco fantástico e dedicado a Anthony Minghella.
De forma incrivelmente sensível, diferentes formas de amor e paixão são retratadas tendo sempre a modernidade e diversidade da cidade como plano de fundo. Amores adormecidos, rejeitados, idealizados são vividos de forma doce e tocante.
Cito, por exemplo, o curta escrito e dirigido pelo Fatih Akin, que conta a história do amor platônico de um pintor por uma chinesa de Chinatown. A arte e o amor são misturados de uma forma tão homogênea, que não se percebe a linha tênue entre o desejo e a admiração. O jeito silencioso de dizer através de olhares, de trilhas, de tomadas. Acho isso o supra sumo da sensibilidade. E quem, pergunto eu, atualmente tem sensibilidade na forma? Ok, alguns artistas. Mas eu penso que a arte – com raras exceções – retrata a vida, as emoções, as paixões. Se vendo o retrato disso conseguimos encontrar sensibilidade, deve ser porque ela ainda exista, certo? E onde está? É, exatamente: no jeito silencioso de dizer através de olhares, de trilhas sonoras ou não, de tomadas de vídeo ou de visão.
Você já parou pra perceber isso? Hoje?
Você compreendeu em muitos momentos a doçura e a beleza do silêncio? Já se pegou ritmado e vendo a coisa acontecer de forma maravilhosamente livre e cadente? Você já mudou sua tomada de um olho para o outro, deixando de ver o óbvio?
Sim, é difícil. Mas não é a vida que imita a arte, meu bem.
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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Labaredas

foto de geoffroy demarquet
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Todas as minhas pontas são labaredas. Possuo na casca uma felicidade vermelha e sobejante, que estala as extremidades de mim.
Sinto meu próprio açoite. Eu, mulher de tentáculos, termicamente borbulhante.
Às vezes me queimo, mas eu mesma assopro os hematomas.



Samantha Abreu

7 Coisas de tão longe

Os 7 motivos que me fazem entender como ele consegue, a mais de 9 mil quilômetros de distância e com muitos anos de ausência, ser tão presente:
  1. o jeito como sorri: não perco a mania de comparar com outras bocas e lembrar se torna inevitável. Os dentes retos e juntinhos. Um canino sobressalente e eu uma presa desarmada;
  2. a assertividade: que quase se confunde com altivez. A forma como domina, assegura, impõe;
  3. a hombridade: o valor que dá às coisas simples, essenciais, o caráter, a personalidade forte;
  4. a sensibilidade incomum: quase imperceptível, mas que se entrega em pequenos momentos e revela como tudo pode ser infindavelmente doce;
  5. a eloquência: a inteligência através de experiência, a vida escancarada, o poder do convencimento, do envolvimento;
  6. a dor: que o faz tão lindamente humano, as experiências, as feridas não totalmente cicatrizadas;
  7. a força: a liberdade que carrega com si mesmo, aquela de fazer o que acredita, de dizer o que pensa, de enfrentar o que tiver que ser.
É lindo de ver.
É inesquecível e, vez enquando, volta a me atormentar.