Tenho uma dor que ainda não foi descoberta.
Ninguém soube medicar, é uma dor muda e estrangeira. Uma dor liquefeita que me derrete por dentro e me dilui o reconhecimento. Escorre por minhas pernas, menstruando vida de mim.
Por outro lado, essa dor me concebeu uma insistência paciente: a de saborear o tormento do quase, do talvez, do quem sabe. Vem dela, da indecifrável via, o fascínio pelo imperfeito.
E é nisso que hoje me consumo: no encantamento pelas correntes que me transbordam para o mundo e que me privam de almejar a completude.
O que fica em mim é sempre o desejo dessa dor anônima.
Samantha Abreu
