Ela faz o jogo de se abrir e fechar em um movimento tão cadenciado quanto cansativo. Guerreia em nome dos dias de céu caramelo.
Hoje ela deseja um filme francês, quer vestir apenas a velha camisola. Uma bacia de pipoca sobre a barriga e um choro amargo em nome de uma triste história européia que não é a sua. O suspiro do cachorro ao lado do sofá, garantindo uma fidelidade quase onírica. Depois de muitas lágrimas, ela agradece pelo sorriso que ainda vê no espelho e no súbito desejo de ânimos espiralados cantarola sua canção preferida, enquanto enche a própria alma de desejos e lenimentos infantis. Dança deslizando pela sala e cai no sofá, explodindo uma gargalhada cândida e sincera. Sai para comprar o pão das dezesseis horas na mercearia da esquina e o come ainda quente. Fala confortavelmente sozinha e com a boca cheia.
Mas os dias são outros. A celeridade deles a arrasta, o sapato aperta e ela já não pode chorar. Não é tempo de filmes europeus e Amelie Poulain é uma heroína tola. A graça foi massacrada pelo compromisso: não mais se gargalha.
Nessa realidade que ela tenta colorir, a vida insiste em proibir.
Em dias assim, a poesia é apenas uma carta suicida.
Samantha Abreu
foto de delilah woolf

