sábado, 30 de abril de 2011

Água Viva


Há algum tempo eu persistia na leitura de Água Viva sem encontrar uma forma de ficar nele. Já ouvi relatos interessantes sobre essa experiência. Minha amiga Beatriz Bajo, por exemplo, diz que não conseguiu ler sentada. Já eu, notei que quando o leio em silêncio me perco demais dentro de algum lugar que não sei qual é: uma viagem que me tira dos caminhos do texto. Aí, resolvi tentar uma vez e estava feito meu acordo com Água Viva: não consigo mais ler uma linha sequer senão em voz alta.

E uma coisa linda me aconteceu. Enquanto eu lia soltando a voz pelo quarto, fui tomada por um súbito e voraz acesso de choro. E enquanto chorava, eu não consegui parar de ler. Essa mistura de choro, soluço, voz, texto e um nó dolorido foi de tamanha força em mim que me deixou aérea por algumas horas depois. No bar, Beatriz me perguntava: "Sá, onde você tá?", mas eu não sabia dizer. Bia, eu só não soube dizer...

E foi aqui que me peguei:
"Mesmo para os descrentes, há o instante do desespero que é divino: a ausência do Deus é um ato de religião. Nesse mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas ta...mbém destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei - assim como se come e se vive o gosto da comida. Minha voz cai no abismo do teu silêncio. Mas nesse ilimitado campo mudo desdobro as asas, livre para viver. Então aceito o pior e entro no âmago da morte e para isso estou viva."
(Água Viva, Clarice Lispector, 1973)


foto de SnjezanaJosipovic

2 comentários:

Webert Gomes disse...

Cazuza foi pego pela mesma - que infâmia dizer "mesma", mas nos perdoe neste momento a falta de expressão exata com o que perpassa dentro - pela mesma erupção de sentimentos enovelados pela massa transbordante que é Agua Viva - que exatamente por não ter nada a ver com vulcão, foi comparado agora.

Entrelaça nossos medos e angústias nas teias mais insensatas e cruéis, queimando a pele, tronco e osso. Dói. Fere. E volta a ser prazer de novo, mas como nunca antes. A cicatriz é sermos de nós mesmos.

Também passei por situação semelhante. Mas na releitura. (Aliás, este livro é relido dezenas de vezes por mim. Abro um trecho e pronto, meu dia foi salvo pelo nada). Acrescidas as lágrimas e a entonação vocal, a leitura ficou mais gostosa, o timbre de sabor que é ingerir água doce do mar - e não entendi. Foi assim que me senti. Penetravelmente, mar.

A parte que me socorreu e me fez vítima foi o trecho em que ela diz sobre a epifania, o estado de graça, que o "pacto com Deus deve ser este: ver e esquecer, para não ser fulminado pelo saber". Morri para depois ressuscitar.

Sabia que este trecho que lhe culminou a alma e a mente a um estado líquido (rsrs), foi cantado por Cazuza e depois por Cássia Eller? Gosto mais na voz da Cássia, ouço sempre. Já deve conhecer. se ainda não, procure. Vai complementar os sentimentos vividos na literatura com a musicalidade de Cazuza que compôs o ritmo com este exato trecho. Chama-se "Que o Deus Venha".

Obrigado por ter compartilhado conosco das suas sensações. Me faz bem perceber que Clarice não deixa só a mim vulnerável. Bom saber que a fragilidade entoa em todos quando se permitem mostrá-las.

A assunção da fragilidade já é uma fortaleza.

Grande abraço, querida!

W. Gomes

Mar Becker disse...

Que linda experiência, e que trecho que escolheu, hein... Me tocou muito! "Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha".