quinta-feira, 23 de junho de 2011

De espelhos e cortes

foto de katarina sokolova


Desde cedo, o fascínio por espelhos. Refletindo o escuro do mundo, doía. Era cutucar com os dedos a conferir se a ferida continuava latente.
O gosto pelo rubro ardor do lado de dentro. Os olhos que se aproximavam e se viam além do castanho, além do brilho: incursão por onde cada espelhar revelava um espaço de esconderijo do que floresce. Encantamento de sangue.

Ao seu redor, sempre vitrines, metais e retrovisores.
Era confortável notar o próprio espectro por onde passava. Já não olhava para os outros ou para as coisas dando o sentido que os outros e as coisas deviam ter.

Saibam os que conhecem a menina: é preciso coragem para se acostumar aos espelhos que transcortam em busca do além do reflexo.
Deve-se ser muito forte para amar em si o irrefletido.



Samantha Abreu

2 comentários:

L. Rafael Nolli disse...

Samantha! Lindo texto!

"Deve-se ser muito forte para amar em si o irrefletido."

Sérgio Luyz Rocha disse...

E aí, há tempos, não?
Garota, muito embora a frase "deve-se ser muito forte para amar em si o irrefletido" seja daquelas definitivas...ponto final...partamos prá outra...e por aí vai, acredito que encarar o que se reflete exige ainda mais força...
De qualquer forma, seu texto continua impecável...olhe-se por onde olhar, reflita-se o que se refletir.

Beijos...