segunda-feira, 5 de setembro de 2011

PANDORA



Mulher de muitos cabides, acostumei a manter as fantasias esticadas e livres.

Quando as dobrei para guardá-las na mala de fuga, comecei a sentir as dores. A cada dobra uma contração de parto retido. A primeira fisgada na altura do ventre, depois nos seios e nos braços.

Empilhei fantasia sobre fantasia dentro da minha bolsa de segredos intocáveis. Contorcidas, gemiam umas sob as outras.

Mas foi no momento de trancá-las que começaram os gritos. Já me acostumei às contínuas dores e ardumes das dobras, mas os gritos... os gritos...

Eu, Pandora desvairada, já não posso mais pendurá-las. Hoje me amedronta desatar tanta amargura entre elas abafada.



Samantha Abreu
texto do livro "Fantasias para quando vier a chuva"
foto de delilah woolf

3 comentários:

Fabrício Brandão disse...

Imagine o quanto existe de mistério por trás da Pandora de cada mulher!

Belo texto, Samantha!

Beijos

celia.musilli disse...

Bonito isso e pensar que ainda não tenho seu livro, Samantha, preciso ir buscar né? rs Bjs.

Solivan disse...

apareci,lindo seu poema.