foto de katarina sokolova
Desde cedo, o fascínio por espelhos. Refletindo o escuro do mundo, doía. Era cutucar com os dedos a conferir se a ferida continuava latente.
O gosto pelo rubro ardor do lado de dentro. Os olhos que se aproximavam e se viam além do castanho, além do brilho: incursão por onde cada espelhar revelava um espaço de esconderijo do que floresce. Encantamento de sangue.
Ao seu redor, sempre vitrines, metais e retrovisores.
Era confortável notar o próprio espectro por onde passava. Já não olhava para os outros ou para as coisas dando o sentido que os outros e as coisas deviam ter.
Saibam os que conhecem a menina: é preciso coragem para se acostumar aos espelhos que transcortam em busca do além do reflexo.
Deve-se ser muito forte para amar em si o irrefletido.
Samantha Abreu
