
Nesta segunda, dia 04, minha velha fez 57 anos. Acho que, finalmente, de uns anos pra cá, eu e ela encontramos nossa harmonia ou sei lá do que isso poderia ser chamado. Vivemos muitos anos de inseparáveis pés de guerra. É que minha mãe sempre foi, desde menina, uma rebelde com causa única: viver irremediavelmente. Pra nós - eu e minha irmã - ela sempre foi mais uma colega ou outra irmã do que qualquer coisa parecida com o que as mães costumavam ser. Nunca tivemos um amigo que não caísse de amores por ela, por conta de toda modernidade, leveza e descontração que ela tinha. E ainda tem. E eu sofria por querer apenas uma mãe responsavelmente careta. Na minha adolescência e até um pouco depois, eu tentei muito exigir isso dela: que ela fosse mãe, que fosse responsável, careta, e que fosse casada com meu pai pra sempre. Mas ela nunca conseguiu. Só que o que eu ainda não sabia, na verdade, é que quem precisava amadurecer e aprender que as mães não são iguais era eu. Não sei se cedo demais ou muito tarde, percebo que isso aconteceu. E nós ainda brigamos tanto... eu com esse meu gênio de ar e ela com essa dentríce de água. Mas hoje nossas discussões são aquelas de convivência, de quase irmãs. E ela, ainda bem, continua carregando leveza e toda falta de caretice do mundo.
Sei, agora, que foi muita sorte minha ela não ter sido - e até hoje não ser - uma mãe como as outras. Isso fez com que eu me tornasse uma filha e uma garota também diferente das outras filhas e garotas... Coisa que só se aprende com a mãe que se tem.